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Cultura em extinção

A cultura e as histórias dos países e das gentes estão profundamente ligadas.

Diria mesmo que a cultura é uma pedra basilar na forma como se constrói a História e as histórias, mas não deixa de ter proveniência na própria História.

E este novelo remete-nos para o eterno problema sobre saber quem nasceu primeiro, se o ovo, se a galinha.

Parece-nos, no entanto, que a História se constrói através da cultura e a cultura vai-se metamorfoseando consoante o rumo que a História vai tomando.

O certo é que a questão cultural é um denominador de proximidade e de afastamento entre povos.

Nós, os Europeus, somos detentores de uma “cultura europeia”, falsamente homogénea e que se manifesta quando queremos afastar-nos, por exemplo, de pessoas cujos costumes sociais e religiosos não se compaginam com os nossos.

No entanto, dentro desta “cultura europeia”, somos confrontados com assimetrias culturais gritantes.

Repare-se que, durante a intervenção da Troica, alguns dos países do sul, nomeadamente, Portugal, Espanha, Itália e Grécia, foram denominados de “PIGS” e eram acusados, pelos países do norte, de serem corruptos, despesistas e pouco dedicados ao trabalho.

E depois, dentro do nosso Portugal, país de brandos costumes e de génese multicultural, acusámos, durante a Pandemia de Sars-Covid2, algumas minorias de serem as causadores da propagação da doença e sustentámos essa teoria com base nos seus “costumes” e na sua cultura.

Em alguns casos era recorrente ouvirem-se frases como “é a cultura deles” ou “lá no país deles é assim”.

Existiu, mesmo a nível político, quem utilizasse as diferenças culturais para fazer campanha, tentando virar seres humanos contra outros seres humanos.

É óbvio que, quer as pessoas, quer os países, têm avanços civilizacionais distintos e que as diferentes culturas podem entrar em choque.

Os costumes distintos entre os povos podem ser geradores de conflitos, mas apenas e só enquanto não ultrapassamos questões de fundo e que se encontram amplamente camufladas.

Ser-se contra determinados hábitos culturais é uma forma subtil de se ser preconceituoso, racista, xenófobo ou homofóbico, sem se ser alvo de qualquer censura moral e/ou social.

A cultura é o ponto de fuga para questões muito mais profundas e que estão ligadas à discriminação.

A cultura europeia, nomeadamente depois da Segunda Grande Guerra, mudou muito e tem-nos permitido viver em paz.

A Pandemia que surgiu em 2020 poderá permitir-nos perceber que o mundo só poderá reagir a situações adversas se se unirem esforços, independente da geografia ou da cultura de cada nação. Os novos hábitos de higiene, adquiridos durante este período, podem mudar alguns hábitos culturais bem portugueses, como os apertos de mão ou os famosos dois beijinhos.

A desinfeção das mãos, tornando-se num hábito cultural adquirido neste novo século, poderá permitir uma diminuição de coisas simples como a gripe sazonal ou as conjuntivites (para citar apenas duas), mas poderá, a longo prazo, diminuir-nos resistências importantes para o nosso bem-estar.

Todavia, seja por via da guerra ou da doença, o que se prova é que, independentemente das diferenças sociais e culturais, somos todos seres humanos com o mesmo valor e que devemos sempre absorver o que cada cultura tem de melhor para que possamos acrescentar à nossa! E nesse campo, o desenvolvimento das novas tecnologias, e a própria expansão massiva da Internet, tem permitido ligar culturas, diminuir assimetrias, tornar menos “bizarros” os hábitos culturais de outros povos, levando mesmo a adoção de alguns deles. No caso de Portugal, por exemplo, foi importada, nos últimos anos, a celebração do Halloween – uma tradição profundamente enraizada em países como os Estados Unidos da América – e fomos diluindo a prática do “Pão por Deus”.

É, assim, expectável que estejamos a caminhar para um futuro em que a proximidade cultural dos povos se una e se mescle, diminuindo diferenças e aumentando a coesão, a compreensão e a solidariedade entre todos. E tal como aconteceu ao longo de toda a História, desaparecerão alguns costumes culturais característicos de vários povos. Em alguns casos, tratar-se-á de um progresso civilizacional, noutros perder-se-ão coisas que passaremos a guardar apenas no imaginário coletivo até que se extingam para sempre.

Balthasar Sete-Sóis

Balthasar Sete-Sóis, sociólogo, escritor, cronista, radialista e crítico literário encontra nas letras e na comunicação a realização e o sentido para aquilo que o rodeia.

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