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Tiny Pretty Things

Ballet elevado à potência melodramática

Tiny Pretty Things é uma série produzida e lançada pela Netflix em Dezembro do ano passado. Contém 10 episódios de cerca de uma hora e procura retratar as vidas de um grupo de bailarinos/as numa escola privada em Chicago, isto após ter ocorrido uma tentativa de homicídio a uma das alunas-estrela. A temporada consiste em tentar desvendar o mistério por detrás dessa tentativa de homicídio, ao mesmo tempo em que somos levados a acompanhar as vicissitudes de vários adolescentes no seu dia-a-dia nessa escola draconiana. Todos procuram atingir o mesmo sonho: tornarem-se profissionais de ballet.

A série, apesar de aludir a vários pontos do planeta, como Paris ou Nova Iorque, reside unicamente numa Chicago que em si se assemelha a uma aldeia interior portuguesa: a quantidade de encontros por coincidência, as premonições de que iria encontrar tal personagem em certo lugar, reduzem a terceira cidade mais populosa dos Estados Unidos a três ou quatro quarteirões demasiado pequenos para tanto conflito e drama. Um dos problemas narrativos da mesma passa pela sua incapacidade em manter uma dinâmica consistente entre os vários fios da história. De facto, não se nota um entrelaçamento equilibrado: em vez de nos depararmos com micronarrativas que ganham protagonismo e ajudam a levar a narrativa principal à frente de uma maneira subtil e orgânica, o que temos é uma desarmoniosa atribuição de protagonismo a vários microdramas que nos levam a perder o fio à meada, muito pelo facto de não ajudarem a progressão da narrativa ou então de a avançarem de um modo formulaico e descarado. Um desses exemplos é o da aparente protagonista Neveah Stroyer, em que, após ter resolvido o problema do seu passado com a sua mãe a meio da temporada, acaba por se secundarizar no contexto de toda a história, apenas surgindo para desencadear certos momentos moralistas e activistas, como que se tornando uma personagem-tópico, na qual só existe no mundo da história para avançar a trama em determinados momentos ou trazer certos tópicos para discussão.

Isso no papel não teria em si nenhum problema, pois é perfeitamente possível (e isso está comprovado em séries com múltiplos protagonistas, como Game of Thrones) que é possível avançar uma narrativa distribuída em inúmeros ramos equilibradamente (pelo menos durante as primeiras temporadas) e com mérito e qualidade. Contudo, o problema das personagens em Tiny Pretty Things é o de que, quando essas personagens não estão debaixo do holofote, elas como que sofrem de uma quebra súbita de personalidade, escondendo-se por detrás de tropos que só ajudam a avançar com a narrativa em vez de estar ao serviço da própria personagem, isto é, de ajudar no aprofundamento do seu carácter, de tornar a personagem “acreditável” no contexto daquele mundo. Como exemplo, o tropo de haver um episódio onde cada personagem diferente tem um pesadelo que o perturba o suficiente para fazê-lo agir é em si sinal de falta de criatividade em levar as suas personagens a fazer coisas que o argumentista pretende; por outras palavras, este problema seria facilmente solucionável se alguém, na mesa dos argumentistas, tivesse levantado a questão de que nem todas as pessoas ou personagens agem da mesma maneira só porque tiveram um pesadelo.

O que não se pode descurar é a performance dos actores. Os próprios realizaram todas as sequências de dança que, sem sombra de dúvida, contêm um nível elevado de exigência. Nota-se que a realização procura fazer o maior uso possível de tais skills, procurando inserir em tantas circunstâncias quanto possíveis tal atributo que, por mais positivo que seja, se utilizado com demasiada frequência, acaba por se tornar saturante e perder a sua capacidade de deslumbramento. É esse o outro ponto negativo: o recurso não envergonhado a fórmulas e padrões pré-estabelecidos ad nauseam, no que toca às personagens e á narrativa. O facto de a temporada começar com a tentativa de homicídio de uma aluna e (spoiler alert!) terminar com a suposta morte de um professor de dança perverso e tirânico é em si sinal de que o tipo de drama que irá advir na segunda temporada será idêntico. Não irão fugir do mesmo registo melodramático, de detective amador em busca de resolver um crime num mundo injusto e implacável como o do ballet.

O background utilizado, de uma escola centenária de ballet com métodos de ensino medievais e cruéis, onde os alunos se juntam para combater o sistema e mudar as estruturas que os afligem é já em si um tropo recorrente de séries adolescentes e de jovens-adultos, e aqui, por mais que a mensagem seja positiva, padece da sua execução e esconde-se, como que ironicamente, numa tradição narrativa já em si estabelecida e imensamente utilizada. Isto porque é muito frequente as personagens esconderem convenientemente as suas personalidades (ou amplificarem ao ponto de parecer inverosímil) de modo a fazer sobressair alguns comportamentos, opiniões ou atitudes no mínimo incongruentes ao nível da personagem, mas que ao nível da narrativa se compreendem o porquê de serem utilizadas: tudo para ajudar a narrativa (bem como uma possível agenda) a progredir.

Em suma, a série em si detém alguns pontos a seu favor: as performances de dança são de elevada qualidade; o facto de o background da série residir no ballet é em si uma excelente dinâmica para trazer para o mundo ficcional e serial, e nota-se que há muito “sumo” para se retirar de tal contexto. A questão é a de conseguir, com sucesso, separar o trigo do joio: poderá ser, no futuro, útil distinguir o mundo trágico e (podemos acrescentar, antiquado) do ballet de uma série melodramática que usa o background do ballet para contar uma história sentimentalista e hiperbólica, que sem sombra de dúvida, irá atrair e captar a atenção de uma demografia mais jovem.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico

Lauro Filipe Reis

Professor e formador em Línguas, Literatura, cinema e estudos asiáticos. Atualmente doutorando-se na área da Literatura e Filosofia.

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