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Por entre Guinness e Evangelhos

República da Irlanda, uma esmeralda na minha vida

Sempre gostei de viajar. Sempre usei a máxima de que conhecimento sem quilometragem equivale a nada. De facto, nunca me bastou apenas estudar. De que serve conhecer todas as teorias e não as cruzar com as vivências subjectivas de cada ser humano? De que me serve saber a História, se não respiro o ar onde a mesma foi vivida? Por isso, viajo. Viajo acompanhada, viajo sozinha, mas viajo. Sou uma das afortunadas que pode dizer que conhece uma fatia simpática do Mundo. Contudo, ainda me falta conhecer muito mais. E, de todas estas viagens, de todas as memórias, histórias e vivências, há um local onde insisto em voltar. Uma, duas, três, quatro vezes. Esse local é a República da Irlanda. Comecei por visitar Dublin, conhecer a sua vida, a sua história, a sua cerveja e os maravilhosos guisados de Guinness que comi no O’Donoghue’s Bar, mas, rapidamente, pus a mochila às costas e segui pelos prados verdejantes da ilha.

O mais famoso manuscrito medieval do mundo

A não perder uma passagem pelo Trinity College e, de preferência, com bilhete para a exposição The Book of Kells, um dos principais livros medievais. O Book of Kells é o mais famoso manuscrito medieval do mundo e os irlandeses consideram-no o seu tesouro nacional. O manuscrito é datado do ano 800 d.C. e é um texto, em latim, dos 4 evangelhos. O que diferencia os evangelhos do Book of Kells é a sua ornamentação e ilustrações. O livro contém desenhos abstratos, imagens de animais e plantas e ornamentos humanos a acompanhar os evangelhos. Foi produzido em pergaminho e contém 340 fólios, com 330 x 255 mm. Ainda não é certa origem do livro, mas acredita-se que os monges do mosteiro da ilha de Iona (na Escócia) foram os responsáveis pela sua elaboração, durante o século IX. Presume-se que o livro possa ter sido concluído em Kells na Irlanda, após transferência dos manuscritos em 806 d.C. Já que o mosteiro de Iona foi saqueado por vikings e 68 monges morreram Os sobreviventes refugiaram-se no mosteiro de Kells, que era governado pela mesma comunidade. Em 1653, o Livro de Kells foi transferido para Dublin por questões de segurança e, desde 1661, está em posse do Trinity College.

A Colina dos Reis: Teamhair Na Rì

Um outro local que visitei e pelo qual me apaixonei perdidamente foi a Colina de Tara ou a Colina dos Reis (Hill of Tara). A Colina de Tara fica localizada perto do rio Boyne e é um complexo arqueológico que se estende entre Navan e Dunshaughlin, no Condado de Meath, Leinster. Dela fazem parte vários monumentos antigos, e, conta a tradição, foi a sede do Árd Rí na hÉireann – o Grande Rei da Irlanda. Contudo, segundo investigações conduzidas no local, Tara não foi uma verdadeira sede de Reis mas um local sagrado associado a rituais indo-europeus da realeza. Hoje em dia é um local místico, repleto de espiritualidade e simbolismo, árvores das fadas e terreno sagrado. Atraí imenso turismo religioso e espiritual e, nesse mesmo rebanho me incluo, pois visitei o local com o propósito de sentir em mim, a constelação desses arquétipos. A invocação dessas memórias arcaicas.

Hill of Tara, Irlanda

Newgrange: mais perto dos Deuses

E foi esse mesmo motivo, que me levou também a Newgrange. Situado no mesmo condado da Colina dos Reis (Meath), é um dos locais pré-históricos mais famosos do mundo e também Património Mundial da UNESCO. Sabe-se que a sua construção aconteceu por volta de 3.200 A.C. no período Neolítico, fazendo de Newgrange mais antigo do que as pirâmides do Egito ou Stonehenge no Reino Unido. Pensa-se que tenha levado 20 anos a ser construído. Em Newgrange, ao nascer do Sol do dia mais curto do ano (solstício de inverno), um fino raio de luz entra através do longo corredor feito na rocha, iluminando toda a câmara final. Quem visita o local, pode experienciar um pouco desta sensação única pois, artificialmente, o ritual é recriado para que possamos sentir este renascimento do aumento da luz. O solstício de inverno representa o marco dos crescentes dias. Na noite mais longa, pensamos na nossa vida e vemos, com expectativa, o menino luz, o Sol, nascer e aumentar. Deste ritual do Sol invicto nasceu a figura do menino que o Cristianismo viu como salvação messianica.

Castelo de Blarney – Caisleán na Blarnan

Cerca de 8 km noroeste da pequena cidade de Cork, está o Castelo Blarney, construído em 1446. No topo do castelo encontra-se a Pedra da Eloquência, a Blarney Stone. Diz uma lenda local, que quem beija a pedra conquista o “the gift of the gab” (dom da persuasão) ou a capacidade de falar facilmente e com confiança de uma maneira que faz com que as pessoas ouçam e acreditem. Algumas referências dizem que este ritual possa ter começado no final do século XVIII. Para além do desafio de beijar a pedra da eloquência (sim! Porque, acreditem, devido ao local onde a mesma se encontra, não é tarefa fácil fazê-lo), o castelo Blarney tem maravilhosos jardins onde se pode ver um variadíssimo número de plantas venenosas. Os amantes do herbalismo vão adorar este passeio, tal como eu.

Kilmainham Gaol -a prisão política que nos faz viver a História

Em Dublin, contudo, existe muito mais para ver para além guisados e evangelhos. Transformada atualmente em museu, está Kilmainham Goal. Uma antiga prisão onde muitos revolucionários que lutaram pela independência da Irlanda foram encarceradas. Esta prisão foi inaugurada em 1796 e aqui eram presos homens, mulheres ou crianças, de revolucionários a pequenos delitos como furtos. Muitas crianças permaneciam em celas escuras e frias, iluminadas apenas à luz da vela. Não nos podemos esquecer que com a fome em 1848, milhares de pessoas foram obrigadas a roubar para poder comer e isso aumentou em muito o número de encarcerados por pequenos delitos. Durante mais de 100 anos, passaram por aqui (e alguns ficaram, sucumbindo às doenças, torturas e execuções) muitos dos personagens envolvidos na luta pela independência da Ilha Esmeralda. O último recluso foi libertado em 1924: Eamon de Valera. Mais tarde, Eamon tornou-se presidente da Irlanda. A visita guiada à prisão de Kilmainham Gaol começa na capela da prisão, onde Joseph Plunkett casou com Grace Gifford pouco antes de ser fuzilado por participar da Revolta da Páscoa. O passeio segue pelos corredores, pelas celas e acaba no pátio onde aconteciam as execuções.

Cork, Cliffs of Moher, Galway, Killarney – pedaços de paraíso

Contudo, a Irlanda é mais do que isto, é mais do que tudo isto. Mais do que História, monumentos ou locais sagrados. Mais do que magia, duendes e cerimónias neolíticas. Mais do que Guinness, Jameson ou qualquer outra bebida que nos aquece por entre as ruas frias. A Irlanda é mais do que o berço de Oscar Wilde, sítio de música folk celta, ou fadas. É também uma terra de gente simpática, afável e com um sorriso no rosto. Terra de quem larga o que está a fazer para ajudar um estranho e apuros. Uma terra onde a visão positiva se sobrepõe às misérias da vida. Perdi a conta às vezes em que visitei a República da Irlanda e de cada vez, não sei se trouxe um pedaço da ilha ou se lá deixei um pedaço de mim. Mas sei que gostaria muito de lá acabar os meus dias.

Tatiana Santos

santostatiana@edu.ulisboa.pt

Psicóloga, Redatora, Investigadora em História

Tatiana Santos

Tatiana A. Santos é Licenciada em Jornalismo (ESCS), ex jornalista do DN e de A Bola. É, actualmente, produtora do programa de Rádio "O Martelo de Jung", na ESRADIO; Psicóloga Analítica; Docente na International Academy of Analytical Psychology e Doutoranda em História das Religiões, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A autora não usa o acordo ortográfico

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