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Alentejo, meu oásis, meu deserto!

A desertificação e o êxodo rural - um olhar

Quem toma um dos muitos caminhos que se estendem desde Beja até ao Sul do Alentejo, vê-se embrenhado num ambiente de triste beleza. Ou se preferirem trágico-belo. Seja pela Serra de Mértola, seja pelas planícies de Castro-Verde (que não é de todo Verde), chegamos a um sítio onde as árvores não se vêm, a vida não se encontra… as pessoas não se vêm e as aldeias estão caídas, abandonadas e desertas (muitas vezes reduzidas a um punhado de gente).

Toda a minha vida tenho feito este caminho. O caminho não muda… a paisagem deteriora-se. A esperança parece fraquejar em mim cada vez que passo aos Álamos, vou até ao Pomarão, ou simplesmente viajo pelas planícies de Entradas e vejo um Alentejo que respira de Inverno, morre de Verão. E um Alentejo cheio de vazio. Cheio de falta de pessoas.

Um deserto é classificado como uma zona árida, um bioma com pouca variedade, de difícil subsistência, sem vegetação…

Durante muitos anos o Alentejo tem sido fustigado pelas consequências anos e anos de más políticas de ordenamento do território (agrícolas, sociais e económicas). Para uns um oásis cheio de agradáveis planícies que se estendem por quilómetros, de vinhas onde se produzem alguns dos melhores vinhos do Mundo e de olivais que se expandem numa imensidão de verde-pálido – num bucólico ambiente que lhe faz mais mal que bem – o Alentejo não é só a terra dos extraordinários pores de Sol, dos cantes nas tabernas e do bom queijo.

Para nós, o Alentejo é a nossa casa… para tantos outros já o foi e já não é mais.

Hoje em dia, o Alentejo e o Algarve são considerados os bastiões contra o avanço do deserto, da mortalidade da terra que desiste graças ao crónico abuso de que tem sido alvo. Nestas pequenas linhas vou tentar demonstrar as causas para a desertificação do Alentejo interior, aquele que me é mais caro e próximo, mas também uma ou outra forma como podem ser revertidas.

Há três grandes causas para a desertificação dos solos: monocultura (repetir a mesma cultura intensivamente ou permanentemente na mesma parcela de terra), retirada de matéria orgânica dos solos sem reposição (aquilo que podemos considerar a reserva de fertilidade dos solos) e as más práticas agrícolas em relação ao substrato (permanência do solo a nu, constante mobilização, criação de poeiras, desgaste das reservas hídricas do solo, entre tantas outras).

Há três grandes causas para a desertificação do meio rural: ausência de oportunidades de trabalho, ausência de diversidade económica e ausência de carreiras.

A verdade é que a agricultura impera na economia do Alentejo interior e rural, ela é responsável pela maioria dos empregos criados na região:

Em percentagem existiam 4,6% de desempregados inscritos nos centros IEFP, na região Alentejana, em 2019 (PORDATA). Este número é igualado pelo seu irmão Algarve e encontra-se apenas ligeiramente abaixo da média nacional (4,7%).

No que toca à qualidade do emprego, segundo a PORDATA, veja-se: em 2020 o Alentejo foi a segunda região com menos oferta no sector terciário da economia e no sector terciário ocupou a mesma posição. Num ano atípico em que apenas o Algarve demonstrou maus resultados, o retrato de uma região que vive do turismo e esteve em pausa. Se compararmos estes valores com os referentes ao sector primário – onde o Alentejo é a segunda região do continente com mais oferta – chegamos à conclusão que: o sector primário (a agricultura e a pecuária) continua a ser o maior motor da economia no Alentejo.

O problema é que, nem todos os jovens têm vocação para a agricultura e gostariam, muito justamente, exercer outras atividades. E, se bem que é sempre possível investir na região e ser-se aquilo que se sonha, a verdade é que nos grandes centros urbanos, no litoral, existem muito mais oportunidades (e boas oportunidades) para designers, engenheiros informáticos, engenheiros industriais, engenheiros civis, profissionais de saúde, jornalistas, advogados… Então que remédio se não ir embora?!

Qual foi a última grande empresa que se fundeou no Alentejo, na zona interior? Qual foi o último grande investimento na criação de emprego ou na criação das condições para que as empresas operem com vantagem e lucro? Boas estradas, comboio, bom ordenamento, espaço para a competitividade agrícola e diversificação do mercado, para o surgimento de projetos de inovação tecnológica e industrial. É disto que o Alentejo precisa.

Agora juntem-se a mim nesta pequena conclusão… nós possuímos uma dependência do sector primário enorme. Aliás tremenda, pois até o nosso turismo é maioritariamente agroturismo e os demais serviços de venda e atendimento estão cá para satisfazer a população empregada no “agribusiness”, se pensarmos bem e seguirmos as cadeias iremos desde as herdades até à cadeira do dentista ou do restaurante, muito facilmente e provando rapidamente a interdependência entre todos os intervenientes.

E se, por ventura não mudarmos a forma como exploramos a Terra nesta região, o deserto avança, deixando as parcelas inférteis e secas? O que acontece ao que aqui existe? Nós que dependemos tanto do solo, da água e do sol, para onde iremos, o que comeremos?

Então há-que preservar aquilo que temos de bom, melhorando a forma como o fazemos, e há que criar novas oportunidades e novas resiliências para que mais e mais jovens não abandonem esta região.

Cada jovem que se muda para o litoral representa um futuro que se vai embora, uma oportunidade para o interior que se finda… no corpo de uma pessoa que não encontrou cá oportunidades.

No Alentejo a verdadeira luta é contra o Deserto! E esta luta trava-se em duas frentes: se por um lado queremos parar o avanço da desertificação da terra – bem essencial à atividade agrícola. Por outro queremos inverter a desertificação das ruas, das fábricas, das lojas, das praças e das aldeias. Queremos manter as pessoas, talvez cativar mais pessoas… E isso só se consegue respeitando o potencial escondido dentro de cada um destes indivíduos e respeitando a Natureza que nos rodeia.

 

Assim é, no Alentejo.

André Afonso

Nasci em '95 em Serpa, Alentejo e, por isso, gosto das coisas que se alargam e duram como as searas e vivo bem a brandura quente do sol de Verão ou o rigor do frio de Janeiro. Sou Agrónomo, mas um pouco mais do que isso - gosto de investigar a cultura destas gentes, seja a música ou as excelentes mil maneiras de aproveitar utilizar Pão na cozinha!

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