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Sociedade

Eu quero, e tu?

Os relacionamentos amorosos podem falhar, ou sofrer erosão, por diversos motivos: por rotina, por falta de amor, por incompatibilidade de feitios, por traição, distanciamento, por objectivos diferenciados ou perspectivas diversas. No entanto, surpreendentemente, tenho-me apercebido de diversas ruturas ou adiados términos por uma questão importante que é a vontade de ter ou não filhos.

No início é a paixão, sem se saber se dura, se evolui para uma relação estável ou se esvai sem conquistas maiores. E a questão de filhos raramente é falada neste início, precisamente porque é cedo para conversas sérias, não sabemos ainda muitas vezes se queremos ser pais, ou se queremos sê-lo exactamente com aquela pessoa que acabámos de conhecer, pelo menos de forma amorosa. Ou se é falada, é de forma corriqueira, quase como um desejo para o futuro, mas sem comprometer a relação. Com o tempo, com a maturidade da relação, a conversa surge. E aqui tudo pode acontecer.

A maioria das pessoas pretende ter filhos, ainda que nas gerações mais jovens esse desejo tenha uma concretização cada vez mais tardia. São as condições sociais que não o facilitam, mas também uma outra perspectiva de vida, cada vez mais distante dos seus pais e avós que casavam e procriavam no início dos anos 20. Entre aqueles que querem ter filhos, a vontade expressa de uma primeira criança é quase sempre pacífica, sobretudo se não há filhos de relações anteriores. Eventualmente a dúvida instala-se no 2º ou 3º filho, por uma questão de tempo disponível, situação económica, ou simplesmente opção. Acredito que haja casais que gostariam de avançar para um 2º filho, mas decidiram não o fazer, ainda que ambos não estejam de acordo, e haja alguém que se sente limitado no seu sonho de paternidade/maternidade. Se estiverem de acordo, melhor.

Contudo, nem toda a gente pretende ter filhos. E se ambos tiverem a mesma opinião, o assunto está resolvido. Muitas vezes porque tiveram uma paternidade infeliz que têm medo de perpetuar à geração futura, ou simplesmente porque não faz parte dos seus planos de vida, por falta de vocação, ou simplesmente apreciação por uma vida mais livre e menos condicionada. De uma forma mais gravosa, há também aqueles casais que por questões de infertilidade não conseguem levar o seu intento a diante. E aqui começa a grande questão: o que é mais importante: aquela pessoa ou o desejo imperioso da paternidade? E se a pessoa for tudo o que se quer, e se é exactamente aquela pessoas com quem se quereria gerar uma criança, mas esta não está disponível para isso? Espera-se que mude de opinião? Força-se a ideia? Ou ao contrário, se não se quer ser pai, mas o par insiste nessa questão, como se reage? Cede-se ou insiste-se no seu desígnio?

E aqui o amor tem muito que se lhe diga. Pedra basilar é a comunicação entre o casal: assumir-se o que se pensa, de forma clara e inequívoca, para que se possa agir, de uma forma ou de outra, numa gravidez, adopção ou numa separação.

O assunto complica quando há filhos de relações anteriores. Ao ponto de visão financeiro ou disponibilidade temporal/mental, juntam-se outras questões. O número de crianças já existentes pode ser um entrave a futuros nascimentos. Pode já não haver vontade de voltar a exercer a paternidade, sobretudo se os filhos já se vão tornando mais independentes. Ou pode-se crer celebrar a união com um filho nosso, que se junte aos teus e aos meus. São combinações intermináveis, cada cabeça sua sentença. Estas questões surgem sobretudo com o avançar da idade, suas limitações biológicas ou logísticas.

Mas a questão mais gravosa poe-se muita vez quando um já tem filhos e o outro não. O que importa mais? A paixão romântica que possa ser tão intensa que abafe o sonho, ou o faça perder força, ou pelo contrário achar que aquela pessoa não compartilha do sonho e, portanto, está a perder-se tempo, tão assertivo nestas coisas da fecundidade?

Por estes dias, alguém me dizia que a sua relação tem fim sem data marcada. Que o horário biológico, também presente nos homens, embora com menos exigência, implica o término de uma relação feliz, na necessidade de encontrar uma mãe para o seu desejado futuro filho. Que a companheira actual, já mãe de 3 filhos do casamento anterior, não está nessa disponibilidade, mas percebe o desejo dele, e está disposta a deixá-lo partir para realizar o seu sonho com outro alguém. O amor às vezes tem estranhas formas…

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com Pós-Graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Fui cronista na revista Bird Magazine e edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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