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Como foi possível isto acontecer?

A 27 de Janeiro comemoram-se os 76 anos após a libertação dos cerca de 9000 sobreviventes do campo de concentração e extermínio de Auschwitz.

Esta é uma data que deve estar sempre presente na nossa memória, não só pela mensagem de Esperança que representa, mas por tudo o que aconteceu antes deste dia, mas lá diz o ditado que: “Longe da vista, longe do coração.”.

E assim, vamos vivendo e esquecendo que, há 80 anos e por um período de quase 5 anos, foram brutalmente e propositadamente assassinados, neste continente, cerca de 11 milhões de pessoas.

Destes 11 milhões estima-se que:

  • cerca de 1.5 milhões eram crianças;
  • cerca de 6 milhões eram judeus;
  • e os cerca de 4 milhões restantes enquadravam-se em grupos específicos designados como comunistas, ciganos, homossexuais, deficientes físicos e mentais;

Falar em milhões é muito pouco palpável, até porque usamos os números basicamente para o dinheiro, e a maioria de nós nunca mensurará números com 6 zeros à esquerda da vírgula, mas 11 milhões equivalem à população residente em Portugal. Ou seja, estas crianças poderiam ser as nossas, a população ativa encaixa nos 6 milhões, e os restantes seriam os nossos seriores e todas as pessoas que são intituladas de pertencerem às minorias.

Refletindo sobre estes números, mas sem consciência real, do que foi o Holocausto temos tendência a perguntar-nos:

Como foi possível isto acontecer?

Foi o medo individual, a inveja e o egoísmo individual e social, e a obsessão pelo poder.

No início da década de 30, na Alemanha, assim como no resto do continente europeu, viviam-se tempos difíceis. A 1º guerra Mundial tinha destruído a economia. A população tinha dificuldade para arranjar trabalho e consequentemente para se alimentar. E então alguém com jeito para as palavras, e para a manipulação humana, conseguiu ascender ao poder político, e convencer uns quantos manipuláveis, de que a culpa de uns não prosperarem resultava da existência indigna de outros seres similares, alguns dos quais tinham algumas posses muito cobiçadas.

E assim, abusando do termo “Socialista” no nome do partido, foram-se convencendo as pessoas que estavam aborrecidas, esfomeadas, cansadas, que se sentiam traídas e desacompanhadas, que só a mudança no sistema democrático seria solução. E esta mudança,  capultada pela incapacidade de o restante enquadramento político criar consenso e uma base de governação conjunta, permitiu que um partido com ideias muito fixas, ascende-se até ao mais alto cargo encabeçado por um ser eloquente e capaz de movimentar massas humanas como quem manipula um fantoche.

Importa referir que Partido Nacional Socialista que à data vigorava na Alemanha, vulgo Nazismo, assentava na ideologia:

  • Racismo: segundo sua ideologia, os alemães pertenciam a uma raça superior, a “ariana”, que deveria comandar o mundo. Os judeus eram considerados os principais inimigos. Curiosamente Hitler era austríaco e só se legalizou alemão em 1930.
  • Totalitarismo: o indivíduo pertencia ao Estado. Como o fascismo, o nazismo era antiparlamentar, antiliberal e antidemocrático. O totalitarismo se resumia em um povo, um império, e um líder.
  • Antimarxismo e anticapitalismo: para Hitler, o marxismo era produto do pensamento judaico (pois Marx era judeu), e o capitalismo iria agravar as desigualdades.
  • Uni-partidarismo: Hitler pregava que a nova ordem seria atingida com um Estado totalitário. A vanguarda desta “revolução” deveria ser um partido único, hierarquizado e dirigido segundo o princípio da chefia absoluta, o “Partido Nacional-Socialista”.
  • Nacionalismo: para o nazismo, era preciso destruir as “humilhações” do Tratado de Versalhes e construir a Grande Alemanha.

Hoje, que estamos em 2021, entre uma guerra mundial e uma potencial crise económica prestes a explodir, importa refletir nas semelhanças destes tempos atuais com o que aconteceu há 90 anos, identificando-as e eliminar as verdadeiras ameaças. Importa deixar as “minorias” (detesto esta palavra) ocuparem o seu lugar na sociedade, importa a tolerância a todos, mas não a ilusão nem a submissão aos outros, porque “não há almoços grátis”, tudo tem um preço, e provavelmente não estamos dispostos a pagá-lo se conhecermos os reais custos.

Ainda vamos a tempo de mudar de direção, mas como disse George Santayana, filósofo espanhol:

Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo.

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