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Júlio Isidro, o Senhor Televisão

Certas pessoas deviam ser eternas, como as avós, aqueles seres maravilhosos que desculpam tudo aos netos e, quando olham para eles, encontram sempre alguém muito magrinho. Tal não é possível, mas desejamos com ardor que essa disparatada realidade se concretize.

Júlio Isidro é um desses seres luminosos que já ganhou um lugar de eleição, numa espécie de patamar elevado, na vida de muitos portugueses. É um homem de sorriso aberto e sapiência imensa que usa com mestria para todas as situações que tem de enfrentar.

Deveria ter sido condecorado no dia 23 de Novembro, mas a pandemia pregou uma partida e tal não aconteceu. Teve tudo a que tem direito, apesar de merecer muito mais do que uma medalha, em data posterior e colocada no pescoço pela mais alta individualidade do país, o Presidente da República.

Foi infetado com COVID-19, mas não perdeu a sua bonomia nem a boa disposição e muito menos o seu fair play. Ele é mesmo assim, um homem de desafios e de caráter que não vacila perante o perigo. Sabe-se lá o que terá sentido, mas foi um exemplo de força e de coragem.

Para mim é eterno. Sempre me recordo dele na televisão, com horas passadas em conjunto como se fossemos íntimo e me fizesse confidências ao ouvido. E envelhecer, aquela coisa de viver muitos anos sem qualidade, não lhe assiste no lado negativo, das queixas e ai’s, ai’s que me dói e não me consigo mexer. O homem é a juventude em pessoa e só temos a agradecer. Envelhecer é uma arte e ele domina-a na perfeição.

Atingiu uma idade fantástica em termos de anos de carreira, 61 anos. Poucos se podem orgulhar do mesmo feito. Não criou inimigos de faca na liga nem de palavra doce, mas acutilante. Soube sempre mover-se entre as várias guerras com charme e elegância, qualidades que nem todos conhecem. Qualidade é o que o melhor define e não há quem o iguale.

Sou uma amante da rádio e sei bem o valor que esse órgão de comunicação tem para muitas pessoas. É a companhia constante, a forma de se sentirem vivos e de saber que alguém lhes dedica um pouco de atenção. É mais que sabido que teve um papel de relevo nos períodos das guerras mundiais. A rádio, não o Júlio que é um jovem.

A televisão é uma janela rasgada que consegue trazer mais luz e som para cada casa. É uma voz que se associa a uma pessoa, uma imagem que se vai criando dela e construindo, aos poucos, uma história de vida que em nada se assemelha à realidade.

Mexe-se e faz com que seja seguida. Saber ocupar o tempo dos outros é uma arte e este homem é um verdadeiro artista. Foi ele que acreditou num número grande de jovens que se lançavam no mundo do espectáculo e lhes abriu as portas. Sabia que eles podiam ir mais longe.

A Febre de Sábado de Manhã e O Passeio dos Alegres são marcos históricos na nossa cultura de massas. Outros programas se seguiram e ele foi o mentor de tantos artistas que se aventuraram nos seus tempos de antena. Para os mais novos são apenas nomes, mas as marcas que deixaram, nos outros, são indeléveis.

Soube sempre aguentar horas a fio com a mesma frescura do início e nunca perdeu a pedalada. As manhãs de sábado eram únicas e ele era o grande amigo dos mais novos. Fiz uma colecção de copos com os passatempos que o seu programa tinha. Os domingos faziam parte da rotina e o Júlio era o amigo especial que todos estimavam.

Recordo-me duma frase que disse num desses domingos: “Hoje é domingo e se me quiserem fazer companhia fico muito contente, mas como o tempo está convidativo, saiam de casa.” Claro que não se colocava a questão da concorrência, mas este alerta era saudável.

Podemos continuar a aproveitar a sua companhia na RTP Memória com o Inesquecível e o Traz para a Frente. Culto, mas envergonhado, ou melhor, sem vaidade, proporciona conversas tão interessantes como divertidas. Deve ter algum truque na manga, mas não o revela, que o verdadeiro artista se fecha em copas e continua a brilhar.

Não me canso de o ver. Tem sempre detalhes que me escaparam e assim aproveito para juntar às minhas coisinhas pessoais, como saber mais um pouco sobre música, artistas, rádio, televisão e conhecimento em geral. Nem todos são capazes de ter tanto para dar, mas entende-se o seu poder. Com aquele tamanho consegue amealhar muito mais do que qualquer outro.

Quem não lhe reconhece o valor é muito distraído ou então deve ser de Marte. Só que esse, os desse planeta, não têm a sorte de ter um Júlio Isidro como nós, os que crescemos com ele, os que aprendemos com ele e os que lhe devemos muito, tanto, em termos de entretenimento. Sabia prender-nos horas a fio sem sacrifício e com muita alegria.

Se este era o seu sonho de vida, não faço ideia, mas que se tem saído bem é uma verdade insofismável. Só lhe temos a agradecer e, ao mesmo tempo, pedir para continuar, que a televisão é sinónimo de Júlio Isidro e como capitão, ainda tem muito que navegar.

Margarida Vale

A vida são vários dias que se querem diferentes e aliciantes. Cair e levantar são formas de estar. Há que renovar e ser sapiente. Viajar é saboroso, escrever é delicioso. Quem encontra a paz caminha ao lado da felicidade e essa está sempre a mudar de local.

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