+1 202 555 0180

Have a question, comment, or concern? Our dedicated team of experts is ready to hear and assist you. Reach us through our social media, phone, or live chat.

“I like to be in America”

“I like to be in America, Okay by me in America”

Estes versos ecoam no imaginário coletivo e nem todos temos presente que pertencem ao grande musical da Brodway – West Side Story (WSS) –, um  Romeu e Julieta made in NYC, epítome da imigração americana dos anos 50 e 60.

O filme parte da rivalidade territorial entre dois grupos, os Sharks, grupo composto por porto-riquenhos recém chegados, e os Jets, descendentes anglo-saxónicos, “americanos de verdade” e proprietários do pedaço oeste da Big Apple, degradado e em vias de ser outorgado à classe burguesa.

2021 permitiu levar aos cinemas o remake do filme de 1961, através do argumento de Tony Kushner (baseado na obra original) e das lentes de Steven Spielberg. De Spielberg? Há algum género em que ele não ponha as mãos? Bem, segundo ele faltam os westerns! Desta vez, o seu arrojo focou um musical – género menos consensual -, com a premissa de o revitalizar ao incluir atores latinos no casting, ao aprofundar os dramas pessoais das personagens (para uma maior conexão?) e ao proporcionar igual tempo de ecrã entre gangues (um brinde à equidade, ausente na versão homónima de 61). A exploração da xenofobia, da pobreza e delinquência juvenil condensam a teia do drama musical.

Vi o filme na semana passada naquela louca demanda pré-Óscares, e antes disso questionei-me, se devia visualizar primeiramente o seu antecessor. Neguei-me a isso, queria descolar-me de qualquer comparação e ir de espírito livre.

A cena inicial fez-me duvidar de imediato que estivesse a ver a versão mais recente. “– Obrigada, Spielberg por me transportares para a época do filme e para Nova Iorque!” Gostei deste punch dos fifties na fotografia, da lens flare (por vezes, um pouco abusada) e dos cenários ora opacos e sombrios em contraste com um vigor colorido e celebrativo, ainda assim, insuficientes para instigarem o meu sistema sensorial.

“E o que mais gostaste?”

Diria que pouco. O casting é efetivamente talentoso e representativo mas… faltou-me algo ali. Saliento a inclusão de duas novas personagens: Anybodys, interpretada por Iris Menas, uma personagem não-binária em luta pela pertença no grupo dos Jets, e Valentina, interpretada pela atriz Rita Moreno (a Anita do primeiro elenco de WSS que ganhou um Óscar com esse papel), que vive a dualidade de quem pertence às duas comunidades e não quer tomar partido.

Além disso, tenho a destacar sem dúvida alguma:

  • As coreografias insanas de uma energia incrível que faz falta nos argumentos e até nas disputas corpo a corpo. A música e vestuário exultam sobretudo a vibe latina que faz qualquer pessoa arregalar os olhos e ter vontade de ir de férias para um país desse meridiano cultural;
  • A personagem Anita, brilhantemente interpretada por Ariana De Bose. Uma entrega e força total. She makes it happen in every scene;
  • A voz angelical e a presença da protagonista Maria (Rachel Zegler), debutante nestas Em contraste com Tony (Ansel Elgort), o seu par romântico e (bom) pendent vocal, que de resto é totalmente perdulário, sem textura, um Ken;
  • O rufia-mor dos Jets, Riff (Mike Faist) que encarna satisfatoriamente o sacaninha territorial pré-rockabilly e o rufia-mor dos Sharks, Bernardo (David Alvarez), defensor da honra porto-riquenha;
  • Já mencionei a Ariana DeBose? Já, e repito propositadamente: simplesmente mag-né-ti-ca. Nomeação para óscar de atriz secundária mais do que justificada.

Chegada ao fim, e depois de ver o filme original, sinto que Kushner e Spielberg (re)contam uma versão mais representativa e inclusiva em termos de género e etnia. Há mais cenários de luz, ouve-se mais espanhol e há uma visão empoderada do imigrante e do seu papel na construção de Nova Iorque. Contudo, considero o filme olvidável e questiono a nomeação para os Óscares se não fosse um remake de um clássico sobre a chancela de Spielberg, porque passados uns dias só recordo a coreografia ao som de “La, la, la, la, la, America”.

Não fiquem amargos com a minha opinião, mas, numa era com demasiado conteúdo para anos de vida útil, considero este WSS relevante para os amantes de musicais, para o debate da identidade americana e quiçá para cinéfilos de temporada Oscariana porque torna fácil escolher o(s) preterido(s).

Share this article
Shareable URL
Prev Post

Lili, a puta

Next Post

Palavras à solta pela cidade

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Read next

A Revolução Silenciosa

Quantos filmes “baseados numa história verídica” se perdem em invenções para prender o interesse ou, mantendo-se…

Gone Girl

David Fincher, director de filmes tão conhecidos e variados como Se7en, Fight Club e Social Network, traz-nos…

Olivia Benson

A televisão tem o poder de criar personagens que ficam mais fortes que os que lhe dão corpo. Olivia Benson é a…