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Onde estás, Linklater?

Habituamo-nos ao realismo que caracteriza os filmes de Richard Linklater, à densidade e autenticidade dos seus personagens, à complexidade dos diálogos e à fragilidade das relações humanas que expõe. Foi assim com “Antes do Amanhecer” (1995), durante a viagem de comboio entre Hungria e Áustria, em que Céline (Julie Delpy) e Jesse (Ethan Hawke) se encontram e apaixonam num ambiente romântico,  e conversam sobre o mundo, os sentimentos complexidade dos seres humanos.

Quase 10 anos depois, com “Antes do Anoitecer”, em 2004, Linklater faz-nos acompanhar os mesmo personagens, mais velhos, já com um passado, mais ou menos vulneráveis e com desejos já amadurecidos. Como se ele próprio guiasse os espectadores numa procura das suas próprias memórias, paixões, adversidades, problemas e angústias.

Em 2013, chega-nos “Antes da Meia-Noite”, também com Delpy e Hawke e o mesmo realismo a que nos habituou, colocando-nos a nós, enquanto espectadores, na pele dos personagens, a questionar a nossa própria vida e as nossas próprias escolhas. É a profundidade e vulnerabilidade das personagens que nos prendem à trilogia de Linklater. É a aproximação da realidade, ainda que meio romantizada, que nos cativa e, de alguma forma, conforta. Porque na vida real, a que acontece fora do ecrã, também há promessas por cumprir, expectativas e desilusões, fragilidade e insegurança, medo e esperança, encontros e desencontros. Há relações quebradas, sonhos adiados e desejos adormecidos. Há todo um conjunto de emoções que nos põem à prova, enquanto indivíduos e enquanto sociedade. E essa, apesar de tudo, é a melhor parte da nossa vida e, consequentemente, dos filmes do realizador norte-americano.

Contudo, se os filmes de Linklater – sem esquecer “Boyhood” (2014) – nos habituaram a uma representação crua  da vida dos seus personagens, o mais recente “Onde estás, Bernadette” (2019) não o concretiza. Pelo contrário, há uma falta de autenticidade nas suas personagens, nas relações e diálogos que estabelecem e no próprio enredo.

Cate Blanchett é Bernadette Fox, uma arquitecta com um passado brilhante, mas que, com o passar dos anos deixa de criar, por razões que nos são apresentadas ao longo do filme – sem qualquer tipo de sensibilidade – através de conversas mais ou menos forçadas. Há, contudo, algum simplicidade realista que a personagem de Bernadette transmite: a sua personalidade criativa, pouco dada a relações sociais, com algum humor cru à mistura e a vontade de criar; as conversas que mantém com outros personagens; o próprio pensamento e forma de se expressar. Há, de facto, uma moral da história que acaba por nos convencer: a vontade de criar como algo intrínseco à natureza humana.

No entanto, a história em si segue o mesmo caminho que todos os dramas familiares/ comédias românticas nos habituaram: o fundo do poço e, depois, a superação, que culmina com todas as personagens a encontrarem, juntas, as suas próprias resoluções. O final é feliz e, por isso, é caso para perguntar: “Onde estás, Linklater?”

Onde estás, Bernadette?

Argumento - 5%
Interpretação - 7%
Fotografia - 5%
Produção - 5%

6%

6

Há uma falta de autenticidade nas suas personagens, nas relações e diálogos que estabelecem e no próprio enredo.

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Filipa Flores

Sou uma alma inquieta que gosta de andar pela sombra a observar e escutar, para aprender o mais que puder sobre as pessoas, a sua essência, os seus propósitos, gostos e inquietudes. Exprimo-me melhor através da escrita, à boleia do Antigo Acordo Ortográfico. Interesso-me por tudo e mais alguma coisa e gosto de ir em busca do desconhecido.

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