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Misturas imprevistas e improváveis

Há poucos dias, levantou-se uma polémica, causada por um inquérito realizado a alunos do 5.º ano numa escola do Porto, no âmbito da disciplina de Cidadania. Perguntava-se a crianças de 9/10 anos, se tinham namorados, se já tinham namorado anteriormente, e se sentiam atracção por homens, mulheres ou ambos.

Obviamente, a forma não foi a melhor, nem ficou muito claro o intuito de tal pergunta, e muito menos se os encarregados de educação foram devidamente informados do mesmo, segundo as regras vigentes.

A Pedopsiquiatra Ana Vasconcelos bem como o Psiquiatra e Sexólogo Júlio Machado Vaz defenderam que a pergunta é descabida nestas idades, até porque a maior parte das crianças não a entende na sua amplitude, nomeadamente o que poderá significar a atracção sexual e, sendo uma questão íntima, e que poderá gerar bullying, por exemplo, deverá ser tratada com cuidado e, sobretudo, não gerar melindres nestas crianças em formação.

As reacções dos pais em geral foram as mais diversas.

Por um lado, os pais mais conservadores insurgiram-se de imediato. Mais do que a questão ser inadequada, parecia que o ultraje vinha, sobretudo, da possibilidade de o seu filho ou filha poderem, de imediato, força do suposto impulso gerado, manifestar a sua homossexualidade, obviamente indesejada pelos pais. Outros pais acharam descabido, mas acharam inócuo, porque a criança não percebeu o teor da questão. Outros ainda consideraram que seria a altura de abordar o tema em espaço familiar. Houve também os comentários dos pais ingénuos que garantiram a pés juntos que os filhos não faziam ideia do que seria namorar.

Achei curioso o facto de algumas pessoas relacionarem estas questões com a tendência política. Li, às páginas tantas, um comentário duma mãe que, em evidente estado de perturbação, desabafava: depois admiram-se que surjam as extremas direitas. Não pude deixar de relacionar o facto com as actuais eleições no Brasil. Em resumo, a segunda volta resumiu-se na escolha entre a possível continuação da corrupção, sendo a eleição de Haddad uma certificação da mesma, ou a entrada das teorias de extrema direita de Bolsanaro. Este último, coincidência ou não, proferiu comentários bastante duros relativamente à possibilidade de um dos filhos ser homossexual, o que nunca aconteceria, segundo ele, porque soube educá-lo, e mais valeria a morte que tal sorte.

Não sabemos exactamente a justificação para a homossexualidade, se é que é necessário encontrar uma causa, genética ou cultural. O que é necessário é haver amor, tolerância e respeito. Cruzei também esta situação com o recente caso do assassinato do triatleta, em que um pai, vendo a filha acusada, teve a coragem e a ousadia de parafrasear qualquer coisa como: “E se fosse um filho vosso que tivesse assassinado alguém, matavam-no? E se fosse um filho vosso, que fosse homossexual, matavam-no?” A pergunta instalou-se em mim, e dolorosamente vi a resposta nalguns rostos.

Temos assim as reacções mais diversas, que vão do medo da pretensa estimulação, no sentido de antecipação das experiências sexuais ou na presunção da homossexualidade, à cegueira total relativamente à existência de afectos na infância.

Recordo uma enciclopédia sexual, dividida em volumes conforme a faixa etária, que explanava o conceito. Só quem nunca foi criança poderá ter-se esquecido de como era bom aquele carinho ingénuo e doce que sentíamos por alguém, com quem brincávamos de forma incauta. Era namoro? Se calhar era. Era sexo? Claramente não.  Os afectos evoluem, e vão-se, sim, sexualizando, acompanhando o crescimento, no tempo certo, que deverá exigir alguma maturidade para o entender. Não é aos 9, não é aos 12, será mais tarde, idealmente, em plena consciência e opção. E nisto não há prazos certos. No outro dia, falava com uma adolescente que se referia a uma mais nova: ela sabe mais que eu, se calhar até mais que tu. Ri-me com gosto, esperando que não, para bem dela e meu, obviamente.

Ironicamente, muitos dos pais que mais se insurgem contra as conversas sobre sexo, ou sobre o esclarecimento cada vez mais complexo dos dias de hoje nesse campo, são aqueles que não se incomodam com crianças pré-púberes a dançar de forma inconsciente (quero crer!) músicas que gosto de designar como porno-funk. A propósito, persegue-me uma dúvida, fico mesmo preocupada… quando as crianças cantam “ele faz tão gostoso”, faz-me indagar se será seguro deixar crianças sozinhas na cozinha a fazer bolos… É disso que fala a música, certo?

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com especialização em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos, e fui cronista na revista on line Bird Magazine. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

One Comment

  1. Criança brinca, não namora. Se os pais vestem a filha como adulta, maquiada, salto alto, a criança vai se espelhar no adulto e não nos amigos da mesma idade. Quando os pais acham engraçadinho os filhos dançarem a dança da garrafa, estao expondo as crianças a uma sexualidade precoce. E sim a educação é a base de tudo. Culpa dos pais que querem ser moderninhos e não dar aos filhos a educação que eles ( os pais ) receberam.

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