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Ídolos vazios

Desde a mais tenra idade que não soube o que era idolatrar ninguém. Nunca tive modelos de quem ou de como queria ser, nem posters das grandes figuras da música ou do cinema colados nas paredes do meu quarto.

Até que, aos dezoito anos, descobri a primeira pessoa cujo trabalho e postura me chamaram à atenção.
Essa figura era Mark Knopfler, ex-guitarrista e vocalista da banda Dire Straits e detentor de uma não menos magnífica carreira a solo, embora menos chamativa do que aquela que teve nos anos 80 e 90.

Embora Knopfler não seja detentor de uma voz extraordinária, o certo é que superou essa menos-valia com uma agilidade invulgar no polegar direito que lhe permite efetuar solos de guitarra inesquecíveis e sem recurso a uma palheta, algo que para a maioria dos guitarristas é completamente impossível de concretizar. Mas Mark Knopfler é também uma figura serena, tímida, introvertida, fechada, algo que fazia parte da minha personalidade à época.

Esta identificação com o ídolo, acabou por ajudar-me a ter uma maior abertura para o mundo, pois trazia algum sentimento de pertença e uma solidão menor, já que me sentia mais acompanhado, ouvindo alguém que – embora tímido – expressava o que pensava e sentia por via da música e da escrita.

Dois anos depois, descobri a escrita de Saramago e, tal como no exemplo anterior, o sentimento de pertença voltou e com ele um caminho claro para o que fazia parte de mim: expressar o que via, vivia e sentia tendo a escrita como veículo.

Os exemplos que atrás vos referi, não têm como objetivo falar de mim ou de pessoas que admiro, mas sim o de enquadrar um assunto que vai ganhando cada vez mais relevo nos dias de hoje.

Se há uns anos, idolatrávamos músicos, desportistas, atores e políticos, hoje a extensão é bem maior com o crescimento da Internet e das redes sociais.

Os jovens de hoje já não esperam uma semana para saber que figura irá preencher a página central de uma qualquer revista pop, nem pendurar essa dita página nas paredes do quarto.

Vivemos a loucura da fama. Aquilo que para muitos é um suplício, para outros é um objetivo de vida. Estamos rodeados de influencers e youtubers, pessoas que tentam a fama e o sustento através dos meios digitais ou de programas de televisão completamente vazios e incapazes de acrescentar algo à vida das pessoas.

E é aqui que reside a grande diferença. Existem milhares de pessoas a enriquecerem à custa de milhares de jovens e crianças, mas nada têm para lhes oferecer. Aproveitam a sua pouca maturidade para as encherem de nada. Ao contrário de outros tempos, em que seguíamos alguém, cujo propósito poderia levar-nos até um futuro melhor, hoje em dia, muitos dos ídolos não levam os jovens a lado algum.

Repare-se que esta não é uma conversa de Velho do Restelo, em que se diz que “antigamente é que era bom”. Muito longe disso.

Os ídolos, em qualquer que seja a época, podem apresentar-se como sendo mais integrados e aceites socialmente ou como estando do lado de fora da sociedade em relação àquilo que é o mais banal e aceite de forma consensual.

Sempre foi e sempre será assim.

No entanto, onde pretendo chegar é que, contrariamente aos ídolos de outrora, que emergiram por convicção daquilo em que acreditavam, os ídolos de hoje estão mais mercantilizados e focados no retorno financeiro que a fama lhes traz e vão-se movimentando como girassóis, virando-se sempre para o ponto exato onde o sol brilha.

O que deve deixar-nos realmente tristes, não é a mudança dos tempos ou dos costumes, mas sim o facto de termos perdido ídolos movidos pela convicção e pela crença para passarmos a ter ídolos virais que se propagam de forma mais rápida do que qualquer doença.

Balthasar Sete-Sóis

Balthasar Sete-Sóis, sociólogo, escritor, cronista, radialista e crítico literário encontra nas letras e na comunicação a realização e o sentido para aquilo que o rodeia.

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