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PolíticaPortugal

Verdade ou Consequência

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“o homem é, naturalmente, um animal político”

Aristóteles

Nem a propósito, sobre o tema que me compete escrever, e cujo texto nem se vislumbrava a primeira frase, surge, como oferenda o caminho a seguir. E se os tópicos permaneciam ocultos, torna-se transparente como a água, duma transparência por detrás de se Fazer Política como só quem é político sabe ser, e eis que coincidência das coincidências, algo acontece naturalmente.

Recebo, por via do social virtual, uma partilha de uma ferramenta, curiosa por sinal, que o Observador criou: o Votómetro do Observador. Esta ferramenta interactiva, com base nas respostas a um inquérito pré-feito “lhe permite, em minutos, descobrir com que partidos se identifica nestas legislativas”. Nestas, porque se se vincular para outras, a veracidade dos factos deita por terra toda a credibilidade das respostas. Diz-se que “não é uma recomendação de voto, é uma ajuda à reflexão”.

https://observador.pt/interativo/votometro-legislativas-2022/

Coisas que acontecem e que são coincidência. Outras que nem por isso.

Não deixa de ser interessante a análise do conteúdo, entendendo as questões e depois das respostas dadas, ficarmos frente-a-frente com um “inimigo público” que, somos nós mesmos, e cujos ideais políticos nos surpreendem até.

Sempre considerei que as verdades políticas só se sustentariam com bases em vários ideais. Em que apontamentos de um, misturados com o dois, multiplicados por três,…, seriam a raiz quadrada dum sistema político equilibrado e coerente. Como uma qualquer fórmula matemática ou geométrica onde se assenta a linguagem do Universo. Um absurdo de ideia!

E, quando se fala em política, fala-se em voto – no fundo, o que é do senso-comum. Porém, já em outra ocasião ficou o registo sobre este assunto e não o vou repetir ou estender aqui.

Em curiosidade, fica esta reflexão: quantos de nós, cidadãos, usam desse direito como parte integrante da sociedade onde estão? E, acima de tudo, se o voto a escolher ou o escolhido até aqui, é feito por base num conhecimento das políticas envolvidas em cada Partido, ou se, simplesmente, se vai atrás dum rosto, duma crença enraizada, dum permanente estatuto que os liga e vincula às escolhas que se perpetuam familiares.

É complexo este socializado desconhecimento da política e dos ideais de cada Partido e, é de acreditar que assim como se decretaram partidos do povo, do rico, do liberal, do comunista…, se dá continuidade às escolhas como se fosse um vínculo familiar.

Será conveniente reflectir sobre o que é a Política? Que conhecimento se tem sobre esta matéria? Que assuntos a envolvem? Ou, se é importante aprofundar esse conhecimento para agir em conformidade com os ideais de cada um e as semelhanças com aqueles que nos apresentam dignos de as representar?

“Ninguém sabe que coisa quer

Ninguém sabe que alma tem

Nem o que é o mal nem o que é o bem.”

Fernando Pessoa, in Mensagem

http://arquivopessoa.net/textos/2293

Politicamente socializados, os povos, cujos direito ao voto adquiriram, encontram nesta acção “o poder de decidir” perante uma sociedade que se diz democratizada.

“As nações, com a responsabilidade história da gente portuguesa, não podem imobilizar-se extaticamente, nem devem iludir-se infantilmente; têm que desentranhar sucessivamente da massa das suas tradições e aspirações um ideal coerente com a conjuntura histórica, que exprima e defina o seu estar mudável em concordância com o seu ser permanente.”

Joaquim de Carvalho, Compleição do Patriotismo Português (1953)

“estamos todos numa solidão e numa multidão ao mesmo tempo” Zygmunt Bauman

 

Falar de Política e de políticas deixa sempre um sabor agridoce e uma ténue certeza do quanto se pode ser arrogante, no momento em que a perspectiva pessoal prevalece sobre a de todos os outros. Será o senso-comum a meia medida que os permite equilibrar?

Consultando a Wikipédia, entende-se política como “do Grego: πολιτικός / politikos, significa ” algo relacionado com grupos sociais que integram a Pólis “, algo que tem a ver com a organização, direção e administração de nações ou Estados.”

Parece algo simples esta definição, em que cada um é parte de um todo. Em que a responsabilidade que queremos tanto ver no “outro” – aquele ou aquela que falam por nós, boicotam a própria visão de pessoa enquanto indivíduo e não, enquanto indivíduo que integra algo.

Como se lê em Labirinto da Saudade “a vocação ostentória e boémia da nova classe política, militar e civil passa as raias do entendimento e só em termos freudianos pode ser compreendida.” Ou, talvez, não!

A consequência é que a política é a exerção de poder de um homem sobre outro homem.

A verdade é que se permite isso; camuflado entre romaria, comes e bebes, estandartes e bandeirolas; e, com leis que as defendem impunemente.

Este texto poderá ser o colapsar de uma ideia, com frases feitas e palavras de outros, cuja criatividade ou opinião ficam aquém. Porém, é nessas palavras, concretas, que a ideia se constrói para que, passível de um novo olhar, se construam novas perspectivas, outras acções, outros saberes e juntos, caminhem lado a lado. Geringonças ou não, é da união que se faz a força. Mas, o ego e o orgulho e a vã glória de poder, falam sempre mais alto.

“A demagogia política e o reflexo estrutural que nos caracteriza combinaram-se para produzir o fenómeno pasmoso de alimentarmos a máquina económica com o dinheiro dos outros, gasto alegremente como se fosse nosso.(…)

Todavia alguém terá de pagar, cedo ou tarde, o preço que a aparência exige para ter um mínimo de realidade. Esse alguém é bem conhecido: chama-se povo, o povo que efectivamente trabalha e para quem, como escrevia Göethe, a maioria das revoluções que se fazem em seu nome não significam mais que a possibilidade de mudar de ombro para suportar a costumada canga.”

Eduardo Lourenço, Labirinto da Saudade, pág. 135

Concluindo este texto, fico com a curiosa resposta ao inquérito do Observador, quanto às ideologias políticas e, o tanto que desiludem pela semelhança. Mas, com a certeza de que reflectindo sobre, a responsabilidade de escolher diferente e melhor, garante-me que o faço com a coerência que merece ser feito.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico

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Carmen Ezequiel
Carmen de Jesus Martins Ezequiel nasce a 8 de Abril de 1975 em Queijas, freguesia de Carnaxide, concelho de Oeiras. É sonhadora, brincalhona, impulsiva, emotiva, com uma força interior capaz de mudar o mundo… pelo menos o seu. Em Vila Boim, bela terra do Alto Alentejo, cresce e nas suas planícies se norteia para fazer da poesia o seu modo de viver a vida. Trabalha numa área à qual nunca imaginou actuar e do contato com o sofrimento e angústias diárias, valoriza o ser acima do estatuto e escreve a sua história com palavras geradas das emoções. É feliz por saber que o que faz tem impacto nos outros. Em paralelo, expõe esses sentimentos e experiências vividas no papel e dá-os a conhecer aos outros participando activamente em colectâneas, antologias, jornadas, artigos de opinião, e outros de âmbito literário e cultural. A autora não utiliza o Novo Acordo Ortográfico.

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