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À cria

À cria.

Vou ter de te escrever já. Desta maneira repentina e brusca. Sem floreados de maior. Tem de ser a cru. Assim e já, antes de seres qualquer coisa. A coisa. Antes que se assome o ímpeto animal, territorial e aguerrido que em mim vive. Serás, por isso, a cria. A minha. E o animal que em mim vive sabe o que isto comporta. Vou sentir os ombros alargar, os maxilares enrijecerem, as unhas dos pés roçarem a sola dos sapatos. Vou sentir as costas estalarem e o amor abalroar-me ao ponto de me cegar. Vou amordaçar-me e enjaular-me por conta própria, fazendo um esforço diário para me lembrar de que vou deixar de controlar território que seja. Vou entregar-te a minha vida de forma absolutamente negligente e não vou poder contra isto nada fazer. E é enquanto me resta alguma clareza e pingo de sensatez que devo isto experimentar, estas palavras.

Ando a adiar-te pela fraqueza que me dará parir-te. E é isto que quero que saibas já e relembres um dia, algures. Não andei desesperada a aguardar-te, nem tão pouco te olhei uma vez que fosse enquanto salvação do que quer que seja. Não senti, em momento algum, vazio ao ponto de considerar que eras o que me faltava ter, o meu resgate, o passo seguinte. Sou um animal, e já to assumi, e o que não falta é mundo. É ao mundo que pertencem os animais, sabias?

O meu sonho é uno e comporta a maior necessidade de todas, tempo. Tenho uma sede absoluta de momentos diversificados, díspares, despropositados: o bairrista, o campónio e o culto. Abomino rotinas, são uma gaiola à criatividade. Não tenho lugares certos de arrumação, é conforme, baralho inclusive os horários da refeição quando noto dependência para um em específico. Tropeço nos meus sapatos espalhados e nunca sei das chaves do carro. Vivo com mil papelinhos escritos dispersos em malas e bolsos, gosto da noite e de banhos de mar em água gelada. Reservo para a rotina três coisas: algo que se assemelhe a desporto, letras e vinho. Nestas rotinas não se encaixa a tua vinda, haverás de exigir outras completamente distintas. Compreendes por esta altura que escolher-te é já um ato de amor supremo. E antes que o amor me tolde, que não outro caminho tem a biologia para nos garantir a sobrevivência, sabe que me aflige, em parte, a consciência de que prescindirei de tudo o que me apaixona, nesta medida livre que eu aprecio, por um projeto de humano, tal qual minha mãe o fez comigo.

Nunca eu ousei dizer o descabido: sou o que sou graças a quem me criou! Por me parecer absurdo culpá-los por determinadas coisas. Espero que tenhas a sensatez de nunca dizer destas alarvidades. Somos todos filhos de alguém. E eu que aqui te escrevo já ceguei os olhos a outros, pelo amor que me têm. Sou uma cria, também. Tenho comigo o poder de acabar-lhes com a vida num minuto. Tal como tu passarás a ter comigo. Bastará que a vida nos roube. Duvidei todos os dias deste caminho para a cegueira. Podes vir a não prestar. Somos todos filhos de alguém, até os que não prestam. E o amor vai amarrar-me sempre. E eu entregar-te-ei a minha vida inteira, cheia de gostos peculiares, e tu podes não prestar. Posso amamentar-te e um dia estares no lado oposto à luta pela igualdade de género.

O meu espírito é um putanheiro, está por todo o lugar ao mesmo tempo, completamente obsceno, completamente livre. Os pés, esses, jamais descolam o chão. E é pelos pés que decido, sempre. O meu espírito putanheiro nunca mandou. Soube desde cedo que para sobreviver teria de desmembrar-me em dois. O amante e o carrasco. Jamais deixaria as decisões nas mãos do inconsequente, do livre. As gentes fariam dele tanto quanto queriam. Parir-te é desconsiderar o carrasco. Ficarei à tua mercê, assusta-me de sobremaneira. Não te concebo com ilusões de anjo. És um projeto humano. Uma cria que será um Homem. E conscientemente escolhi parir-te. Nesta altura em que a mãe natureza ainda não me anestesiou, eu quero dizer-te que a mim nunca me faltaram sonhos. Não nasci a acreditar que o meu destino seria parir um Homem. Eu, tenho a mãe mais extremosa de todas e não poucos foram os momentos em que ao olhá-la pensei: não te fazia falta nenhuma teres-me entregue a tua vida. E enquanto mulher já sofri por ela, merecia ter corrido o mundo inteiro e não ser dependente deste amor avassalador. Por isso sabe que, arrumar o exército que ergui em minha defesa, o carrasco, ajoelhar-me e saber-me à mercê é o gesto de amor mais nobre que perspetivo. E talvez mais tarde eu te consiga ensinar a diferença que existe entre quem quer ser acrescentado e quem decide ceder.

Vou passar a ter um medo peculiar de morrer, a temer a morte, o futuro e os imprevistos. Virás amansar-me e eu não saberei fazer mais nada que amar-te. E quando estiveres nos meus braços saberei que a cegueira do amor me fará rosnar ao mundo por pior Homem que te tornes. E é isto que eu temo, os meus braços já não serão da clareza, mas teus. E nesta consciência eu desejei ter-te. Guardei as armas e deitei-me no gelo. Derreteu, tenho o corpo quente. Dois animais, minha cria.

Gabriela Pacheco

Formadora. CopyWriter. GhostWriter. Escritora. Gestora de Desenvolvimento e Formação com Certificado de Competências Pedagógicas, Certificação Internacional em Practitioner PNL – Programação Neurolinguística e curso de Graduação em Direcção Hoteleira. Escreve por inevitabilidade. Cultiva a paixão desmedida pela Arte, a Educação e a Formação naquilo que acredita ser a poção mágica para o desenvolvimento humano.

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