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CrónicasSaúde

Atendi o telefone e do outro lado da linha estava o medo

Apareceu numa tarde. Atendi o telefone e do outro lado da linha estava o medo. Não o reconheci. Vinha disfarçado na voz dele, era uma rémora agarrada ao riso nervoso que não conseguiu abafar o descompasso do coração. O medo viajou pelos cabos eléctricos e entrou pelo bocal do telefone fixo. Algo em mim tremeu. Um fio frágil uniu-nos, outro fio frágil quebrou-se. Um desconcerto instalou-se nos meus pulmões, nas minhas pestanas, arrefeceu-me os pés.

Nesse dia, o medo começou por caminhar lentamente entre as divisões, como se soubesse que tinha tempo. Entrou nas paredes e foi infeção que inundou os alicerces de quem éramos. Espalhou, em cada fissura, uma raiz de onde brotaria a dor. Instalou-se nos gestos de consolo e no silêncio. Transformou-se em espera.

E dias depois, quando o cancro chegou, o medo agigantou-se para se tornar casa.

A normalidade era rasa. A incerteza espreitava entre os movimentos que se fingiam rotineiros, mas que eram de porcelana. Entre as refeições, menos um quilo no meio da roupa. Entre as idas à escola, um novo sibilar na respiração. Entre o serão de televisão, os cabelos caíam. Tudo o que víamos ia partindo. Tudo o que não víamos ia sendo sombra.

De noite espetávamos os olhos no tecto e na possibilidade de não existir futuro. E a incerteza ia corroendo, mesmo quando nos distraíamos e procurávamos ancorar o nosso barco a outros corpos. A nossa vida persegue-nos quando corremos para outras vidas.

E um ano depois, chegou a ausência. Chegou da mesma forma: entrou pelo telefone e transformou-se em casa.

Só aí percebemos que o nome da ausência engana. Vem cheia. É uma presença muda à nossa volta com um som muito próprio, onde cabemos abraçados a um nome, abraçados a um corpo leve, leve, leve. No entanto, a ausência pesa, pesa tanto – é elefante no peito. Não, não no peito; no corpo todo. Como se pesa um universo? Quantos quilos têm a história de alguém, tudo aquilo em que os seus olhos tocaram, tudo aquilo a que as suas mãos souberam dar nome? E quantas toneladas marca a balança do que ficou por fazer?

Fazemos contas complexas, mas saímos sempre desfalcados. A ausência continua a pesar, mesmo que oscile com o passar dos dias. Às vezes trazemo-la como um arrependimento agarrado ao fígado, como uma cara presa aos olhos, como um gesto entre os nossos cabelos ou um riso entre os nossos dentes. O peso volta a surpreender porque de repente nos lembramos que o carregamos. E só podemos continuar a mexer-nos para que ele não nos enterre.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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