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A Pandemia da SIDA

Saúde, Política + Religião = Receita para o estereótipo

O surgimento da SIDA nos EUA, no início dos anos 80, envolveu diversos aspectos das relações humanas. Veio mostrar que, perante uma situação deste tipo – onde existe o desconhecimento dos factos científicos a par de convicções pessoais – temos de estar atentos aos fenómenos da contra-informação e disseminação de fake news, bem como ao papel desempenhado pelas instituições religiosas na esfera pública e privada, devido à influência que exercem no condicionamento da opinião. A epidemia da SIDA começou, quando uma mutação do vírus da imunodeficiência símia, se manifestou em humanos na África do Sul. Esta mutação, à semelhança do que hoje vivemos com o SARCOV2, fez deste vírus um exemplo perfeito de zoonose (uma doença que passa as barreiras entre espécies, passando de um animal para um humano).

Da África do Sul para os Estados Unidos da América, passaram uns anos. Tudo começou a 5 de Junho de 1981. O Center for Disease Control and Prevention (CDC) dava conta de casos de uma rara infecção pulmonar: a Pneumocystis carinii pneumonia (PCP), em cinco jovens homens homossexuais saudáveis de Los Angeles. Todos apresentavam outras infecções pouco comuns para além desta. Em poucos dias, a estes sintomas, somavam-se casos graves de um cancro chamado Sarcoma de Kaposi. Esta junção de infecções oportunistas apenas ocorria em casos raros de imunossupressão, o que denotava o comprometimento do sistema imunitário. Alguns investigadores começaram a chamar esta condição médica de GRID – Gay Related Immune Deficiency (deficiência imunitária relacionada com os Homossexuais) demonstrando já o preconceito e o estigma que crescia em torno da doença. Pouco tempo depois, a pneumonia recebeu a designação de “Síndrome da Imunodeficiência Adquirida” (SIDA).

As atitudes negativas para com pessoas com SIDA foram reconhecidas desde o início da epidemia. O facto de, cedo, se ter rotulado esta doença como uma “praga gay”, fez com que a mesma fosse vista, não como uma doença, mas como um pecado e, na verdade, sabemos que a associação da doença à culpa é antiga. Para analisar o impacto que a religião teve nesta epidemia, é importante perceber quais as estruturas religiosas que operavam na altura. Em 1979, uma poderosa força conservadora de direita começava a emergir pela mão do televangelista Jerry Falwell – a “Moral Majority”. Um grupo completamente hostil ao direito à interrupção voluntária da gravidez e à homossexualidade. Em 1980, a derrota do ex-presidente Jimmy Carter à Casa Branca, deu a vitória ao republicano Ronald Reagan, que teve o apoio de dois terços dos eleitores brancos evangélicos. A ala religiosa e conservadora americana, desiludida com a presidência de Carter, uniu-se em torno de temas como o aborto, homossexualidade, educação sexual e feminismo, formando a Nova Direita Cristã (NCR – New Christian Right) em 1980. Este é o cenário que encontramos no momento em que a SIDA aparece como epidemia nos Estados Unidos da América, em 1981. Com Reagan na administração, a direita cristã evangélica desloca-se para o poder e é esta força que permite a Reagan levar cerca de quatro anos, em total silêncio e tabo, sem se pronunciar publicamente acerca da SIDA.

Muitos grupos religiosos interpretaram esta epidemia à luz das suas convicções e ensinamentos. O comportamento homossexual, por exemplo, é visto na Bíblia como uma violação da vontade divina. O Antigo e o Novo Testamentos, definem as relações sexuais entre indivíduos do mesmo sexo como uma abominação punível com a morte. No livro de Levítico 20,13, podemos ler “se um homem coabitar sexualmente com um varão, cometeram ambos um acto abominável; serão os dois punidos com a morte; o seu sangue cairá sobre eles”. A SIDA acaba, desta forma, por ter a si associados, uma série de conceitos depreciativos ligados à esfera divina do castigo e punição, que alimentaram de forma grotesca, o estereótipo em torno das vítimas deste flagelo. Desde o início da epidemia houve, também, um conflito contínuo acerca do papel da educação ligado ao sexo seguro e ao uso de preservativos, no que toca à redução do número de infectados com VIH. Os membros da Igreja Católica deixaram a sua posição clara ao referir que a distribuição de preservativos estaria a fomentar a prática de actividades sexuais por parte dos jovens, antes do matrimónio.

A SIDA surgiu num contexto de total desconhecimento científico acerca do vírus. Este residia na sombra do conhecimento da época e, envoltos numa cortina de metáforas bíblicas, os julgamentos não tardaram a fazer-se ouvir. Ainda hoje, são proferidos por muitos grupos, acabando por fazer proliferar conteúdo contra-informativo. Todas as epidemias passam pelo crivo da interpretação à luz das religiões com assento na esfera pública, influenciando uma parte significativa da sociedade civil. Hoje, continua a luta pelo conhecimento informado, relativamente a esta e outras epidemias. A COVID19 não é, por isso, excepção. Devemos fomentar o espírito crítico, o pensamento científico e a ajuda comunitária. As pandemias na História ensinaram-nos o que falhou e o que poderá resultar. Aprendamos, então, com as mortes do passado para que, hoje, mais informados, possamos ver com “olhos de ver”.

Tatiana Santos

Tatiana A. Santos é Licenciada em Jornalismo (ESCS), ex jornalista do DN e de A Bola. É, actualmente, produtora do programa de Rádio "O Martelo de Jung", na ESRADIO; Psicóloga Analítica; Docente na International Academy of Analytical Psychology e Doutoranda em História das Religiões, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. A autora não usa o acordo ortográfico

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