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Como prevenir uma ditadura

Olá e boa noite, leitor. Foi desta forma que ontem fui cumprimentado pelos meus vizinhos da Penha de França, durante o habitual passeio higiénico. Inspirado por esta nuvem de esperança, logo desaba o céu à minha frente, enquanto chovem as desarticuladas teorias da conspiração. De todos os quadrantes surgem rajadas de profetas terraplanistas aproveitando um período de medo e incerteza para inundar um pântano povoando-o com ódio, ignorância e dogmas religiosos. Pergunto-me, então, como não ouvimos as vozes de Barack Obama, quando em 2014 alertou que “é muito provável que chegue uma doença que se transmita pelo ar e seja mortal”, ou as palavras de Bill Gates, durante uma TED Talk em março de 2015, quando avisava que devíamos temer mais uma pandemia que uma possível terceira guerra mundial.

Por certo, a voz que mais se fez ouvir foi a de Greta Thunberg que conseguiu despertar-nos para a real crise ambiental que o nosso Planeta sofre. Foi humilhada por alguns e ignorada por quem devia tomar decisões. Uma das causas desta crise sanitária global reside no facto do Homem insistir em invadir o terreno e a sã convivência com animais selvagens, mas também um estudo indica que a probabilidade de morte com Covid-19 aumenta se a pessoa habita num local com alta poluição atmosférica. Apesar de todos estes avisos e das evidências científicas acerca de um profundo problema de saúde pública mundial, os serviços nacionais de saúde continuaram a ser empobrecidos enquanto os nossos impostos eram canalizados para pagar os juros das dívidas públicas e resgates dos grandes bancos.

Os multimilionários acreditam que o mundo é um lugar melhor em 2020. Não os critico e até os entendo, é que o neoliberalismo serve-os tão bem. Apenas se preocupam em manter o status quo, sem conseguirem cheirar o odor a miséria que desnutre o vizinho ao seu lado. Distraídos perante o agravamento crescente das desigualdades sociais, os super-ricos nem notam que empregam uma classe média precária com ordenados centenas de vezes inferiores aos seus, e que só estagnam ao contrário da inflação. Questiono-me se o mundo estará realmente melhor quando se abrem valas comuns ao lado de Wall Street que até festeja o seu melhor desempenho em 46 anos. No meio de uma pandemia temos grupos especulativos a lucrar biliões, dividendos de centenas de milhões de euros a serem distribuídos, enquanto outros milhões, os de pessoas, vertem as lágrimas que antecipam o desemprego.

Qual será o indíce médio de empatia humana destes senhores?

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Desde os tempos de Thatcher e Reagan somos vítimas atentas das políticas que destróiem o Estado-providência, os direitos dos trabalhadores e por consequência a democracia. Os empresários que beneficiam sempre dos apoios a fundo perdido, dos esquemas fiscais ou perdões, pois são “too Big to fail”, vão se tornando cada vez mais influentes. Aumentam a sua teia de domínio e são até capazes de ajudar políticos que os continuem a beneficiar. Constrói-se assim o tal establishment. Reside aqui o leit motif dos discursos populistas que se apresentam como impolutos anti-sistema, como Bolsonaro, deputado desde 1991, ou André Ventura, militante no PSD desde 2001. Explorar a polarização e a fúria da sociedade, a eterna desconfiança sobre a classe política e instituições são a fórmula ideal para quem quer chegar ao poder de qualquer forma.

Vivemos tempos sombrios não apenas ameaçados pelo medo da doença e da sua cura, mas pelo reaparecimento dos autoritarismos. Na rua, vemos pessoas denunciando e vigiando outras. Até parece que a democracia se encontra suspensa e assim aceitamos abdicar de certos direitos para salvar vidas humanas. A questão é: quando (e se) acabar o tempo da COVID-19 será que os direitos serão todos devolvidos? Recordo-me do governo de Passos Coelho e as suas reformas estruturais, vulgo cortar direitos, e noto que nem todos foram repostos pela Geringonça, por exemplo as taxas moderadoras do SNS.

Estaremos prontos para sermos meros actores num episódio de Black Mirror? Onde um algoritmo tem a capacidade de decidir se podemos sair de casa, como na China? Ou, como na Coreia do Sul, cedermos a nossa geolocalização, como foi proposta por 159 (misteriosas) personalidades ao Presidente da República? Vamos abdicar da liberdade de imprensa e de eleições sendo liderados por decreto, como na Hungria de Órban? Não permitiremos aos jovens sair de casa sem a companhia de um adulto, como na Polónia? E as câmaras de reconhecimento facial a vigiarem-nos cada passo, como na Rússia de Putin?

As ditaduras tecnológicas só chegarão se nós as permitirmos. Se continuarmos a enfraquecer e a descredibilizar a democracia, não formos vigilantes e parte activa quanto ao papel das instituições e depositarmos todas as esperanças num populismo despreparado que apresenta soluções demasiado simples para problemas tão complexos.

Francisco Mouta Rúbio

Licenciado em Publicidade, trabalha em audiovisual e social media e está sempre rodeado por cultura, futebol e filosofia. Autor do podcast Dedo no Ar.

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