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CinemaCultura

A Livraria

Retrato duma realidade

Naquela tarde, dormitei no sofá: a casa vazia, a minha cadela a embalar-me com o seu ligeiro ressonar, o sol a entrar docemente pela janela. Acordei molenga e procurei um filme. Sem ideia clara do que pretendia e ainda com reminiscências da sonolência, corri a lista das gravações, e nada parecia chamar-me a atenção. Habitualmente gosto de filmes pouco óbvios, não por uma questão de elitismo ou entendimento de cinema, que não detenho, mas porque muitas vezes me farto do filme de que todos falam, muito antes de sequer ter visto o trailer. Como com os livros, afinal. A menos, claro, que alguém a quem reconheça mérito mo aconselhe.

Passei distraidamente os olhos pelo “A Livraria”, mas confesso que me soou a algo delico-doce, um pouco na onda do filme “Chocolate”, romance ligeiro para tardes domingueiras, finais felizes garantidos. No entanto, sem melhor opção e dado que seria sobre livros, resolvi arriscar, sem iniciativa para mais, que a alternativa sedutora seria continuar a dormitar.

A história acontece em Inglaterra, fim dos anos 50, numa cidadezinha de província à beira-mar. Florence Green, interpretada por Emily Mortimer, pretende realizar o sonho de uma vida, abrir uma livraria, reagindo finalmente a um longo e profundo luto pelo marido morto na 2ª Guerra Mundial. Contudo, não tem a vida facilitada, começando pelo descrédito de tal atividade, manifesto pela entidade bancária de forma desdenhosa, alargado ao advogado, e aos comentários dos habitantes em geral, pela falta de hábitos de leitura. Aparentemente só existe um leitor válido na cidade, um velho antissocial que vive numa mansão, em quase completa reclusão, e sobre quem se contam histórias de puro devaneio. Não pude deixar de me lembrar do “Luto de Elias Gro” de João Tordo…

O desconforto das gentes, sobretudo da cúpula social, começa quando Florence escolhe uma casa velha, em plena rua principal, para instalar a livraria. Depois, as pessoas mais humildes, começam a vê-la com outros olhos, quando é convidada num jantar da cúpula, onde é, contudo, rudemente desconsiderada. Porém, é quando o velho antissocial, seu primeiro e quase único cliente da loja, a convida para um chá em sua casa, que o incômodo se instala de forma alargada.

A resistência, encabeçada pela Juíza de Guerra (perdoem-me o fraco trocadilho, mas Juíza de Paz não lhe assenta no tom viperino), é coadjuvada por um marido General, que parece não ver os seus intentos, assumindo a beatitude da esposa, dando-se a comentários fora de senso, absolutamente contrários , sem que haja contudo inteligência para chegar a ser sarcasmo. Tem como serviçais outras personagens, como o sobrinho, legislador “por encomenda” aos desígnios da tia, ou o produtor da BBC, que se presta a falsidades, comentários cínicos e interesseiros, ou mesmo o advogado da protagonista, que faz tudo menos advogá-la. Todas estas personagens convergem em artimanhas diversas, inventando, mentindo, distorcendo. Tudo isto no sentido de fazer Florence desistir da sua loja, para a qual a Juíza já tem outros planos, apoiada por um mecenas, e que se concretizaria num centro de artes. Estranho, no mínimo, para quem tanto critica a falta de noção de abertura duma livraria…

Com esta gente amargurada contrastam duas personagens: o velho de que falei acima, que a admira pela sua tenacidade e capacidade de reagir ao ridículo com a educação e contenção que não são, contudo, merecidas pelos rudes, e uma menina, assertiva e vivaça, que a ajuda na loja. Com o velho é criada uma relação de aconselhamento e partilha, mas é crescente uma admiração mútua, a enveredar por sentimentos mais intensos. Com a menina, que é a narradora, vem a mensagem final deste filme, mas já lá chegaremos.

Sendo um filme relacionado com livros, há referência a duas obras, absolutamente simbólicas. A primeira é Fahrenheit 451, sugerida pela livreira ao velho, num paralelismo intenso entre a necessidade de exterminar a livraria e a queima de livros realizada na obra, a segunda é Lolita, que é dado a conhecer à livreira por um dos colaborantes da Juíza, para que esta a exponha na sua loja, no sentido de provocar o seu repúdio pela população, como sendo adepta da imoralidade.

Houve duas coisas que se evidenciaram neste filme.

A primeira é o papel do rumor. As presunções do que foi ou será, correm livremente pelas bocas, chegando ao ponto de criar reações a factos que nunca existiram. A utilização da necessidade de se mostrar informado aos seus pares, no poderzinho de bairro, resulta numa propagação sem origem ou garantia, tendo a protagonista muitas vezes sido confrontada com questões sobre decisões suas que nunca terá tomado. Entre os coscuvilheiros porta-correio e os coscuvilheiros-inventores, pergunto-me porque é que esta gente, tão criativa, nunca acerta com a verdade…

A segunda relaciona-se com a subjugação das pessoas a terceiros e aos seus interesses, independentemente do teor dos mesmos, havendo um largo espectro que não hesita em mentir, ludibriar ou mesmo prejudicar terceiros, para continuar a ser protegido pela cúpula. Um pouco como os que vendem a alma ao diabo, e que parecem tirar um prazer doentio da capacidade de infligir sofrimento a terceiros, quando afinal, sem caráter algum, não passam de caniches esganiçados à espera de uma festa do pérfido dono.

Haveria muito mais a contar, muitos mais detalhes que merecem uma segunda visualização.

No entanto, dizia-vos eu, a menina que a ajuda, a empertigada Christine, traz a mensagem. Na penúltima cena, Florence parte, de barco, arruinada e vencida, longe de um final feliz. Em terra, Christine mostra-lhe o livro que esta lhe tinha sugerido ler, ficando como conclusão de uma passagem da paixão da leitura para a jovem menina, que dizia não gostar de o fazer. Menos mal. Ao olhar o céu, percebe-se que Christine incendiou a livraria, para que a maldosa Juíza não tire proveito da estrutura. Christine, a vingadora, resolve assim, na sua perspectiva infantil, o facto de a sua patroa ter sido prejudicada pela perversão alheia, optando por focar-se no essencial,  na sua paixão pelos livros, na sua bondade, na sua resiliência moral, revelando uma personalidade que não se vende, ainda que perca com isso.

Nesse sentido, o filme afasta-se da eterna opção da vitória do bem sobre o mal, o que não deixa de trazer alguma realidade ao idílico cinema do no-final-foram-todos-felizes.  Como a vida, tenho em crer.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com especialização em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos, e fui cronista na revista on line Bird Magazine. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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