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Analfabetos

Não existe nada pior do que ter de debater com alguém intelectualmente analfabeto. Note-se que não estou a falar de pessoas “culturalmente analfabetas” nem tão pouco de pessoas “academicamente analfabetas”. Falo-vos do analfabeto intelectual, daquele que, para além de analfabeto, é desonesto no que ao pensar diz respeito.

O analfabeto intelectual não quer pensar. Ele agarra-se, qual lapa, a uma série de crenças e de tradições sem sentido, utilizando argumentos tão maduros como aqueles que, quase todos nós, utilizávamos em crianças, tais como: “é assim porque é assim”, “olha, porque sim, ná-ná-ná-ná-ná”, “quem não gosta não come” ou até mesmo o famoso “quem diz é quem é, lava a cara com xulé”.

Temo-lo visto no que concerne, por exemplo, às touradas.

Estes analfabetos dão-se ao desplante de colocar, nas redes sociais, fotos de crianças ou de idosos em situação de pobreza extrema e reforçam tais imagens com frases como: “criticam as touradas, mas pelas pessoas pobres não se manifestam”.

Ora, quem será que lhes disse tal coisa?

Ou o que tem uma coisa ver com a outra?

Se eu defender os animais e decidir manifestar-me activamente por essa causa, significa que não me preocupo com a pobreza? Ou com a violência doméstica? Ou com a pedofilia?

Claro que não, Caríssimos Analfabetos!

Assim como os portugueses que, recentemente, ajudaram Moçambique, não se estão a borrifar para a pobreza em Portugal.

Segundo estes iluminados da ignorância, os cidadãos só podem preocupar-se com um problema social de cada vez, não fazendo sentido terem múltiplas preocupações e, claro, têm de respeitar a hierarquia e a importância dos mesmos que foi definida vá-se lá saber por quem.

Assim e com tanta gente a morrer de cancro, devemos focar-nos na cura para esta doença e não devemos perder tempo em manifestações que visem a defesa das mulheres, só porque morrem umas meras vinte ou trinta por ano, vítimas de violência doméstica, num país que já conta com mais de dez milhões de habitantes.

Outro ataque frequente, levado a cabo por estes analfabetos é o de “existir quem defenda os animais, mas que depois não fazem nada pelas pessoas”.

Caros Analfabetos, tenho a dizer-vos que muitos dos activistas pelos animais que conheço, fazem voluntariado com pessoas sem-abrigo, com pessoas com deficiência, recolhem brinquedos para crianças desfavorecidas e até recolhem livros para bibliotecas em Cabo Verde, pasmem-se!

É verdade! Estas pessoas tão desligadas dos seres bípedes e racionais, contribuem para a cultura noutros países.

Vá, caro Analfabeto, pode vir acusar estas pessoas de mandarem livros para Cabo Verde e de às bibliotecas nacionais não doarem nada.

Em suma, pior analfabeto é, acima de tudo, aquele que fala do que não sabe! Se não pretende fazer uma figura ainda mais ridícula, por favor, cale-se! Mais do que fazer esse enorme favor à sociedade, faço-o por si!

Balthasar Sete-Sóis

Balthasar Sete-Sóis, sociólogo, escritor, cronista, radialista e crítico literário encontra nas letras e na comunicação a realização e o sentido para aquilo que o rodeia.

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