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Mons Kallentoft e a escolha do pensamento

Como último dos escritores de policiais nórdicos, pelo menos até eu conseguir deitar as mãos a um livro de mais um destes autores, trago-vos Mons Kallentoft.

Os seus quatro livros “sazonais”, representativos de cada estação do ano, apresentam-nos a inspectora Malin Fors. Uma vida complicada e desorganizada, tão típica de vários personagens policiais, traz a reboque um ex-marido e uma filha com quem ela nem sempre se consegue entender. Os crimes que esta ambiciosa profissional trabalha para resolver, são-nos apresentados com descrições realistas e ao pormenor, de tal forma que conseguimos quase ouvir o tipo de silêncio que Malin Fors está a sentir, o tipo de silêncio que só a morte é capaz de oferecer.

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O primeiro livro, passado no Inverno, é Sangue Vermelho em Campo de Neve. Deliciem-se com a sinopse:

“No Inverno mais frio de que há memória na Suécia, um homem, nu e obeso é encontrado pendurado num carvalho solitário no meio das ventosas planícies de Ostergotland. O cadáver apresenta sinais evidentes de violência mas, em volta, a jovem e ambiciosa inspectora Malin Fors só pode constatar como a neve cobriu e ocultou para sempre as eventuais pistas deixadas pelo assassino. A única certeza é que o macabro achado vai abalar a vida tranquila da pequena comunidade de província e trazer de volta terríveis segredos há muito escondidos.”

Quem era aquele pobre homem que foi assassinado e deixado humilhado? Qual é a sua história? Sem provas visíveis, como é que a inspectora vai conseguir descobrir o que quer que seja? Não há sombra de dúvida que as histórias de Mons Kallentoft são originais e criativas, que nos fazem pegar no livro e só voltar a respirar (e a sentir que podemos retornar à vida real), quando o terminamos.

Porém, além da história original, o que há de tão diferente e especial em Mons Kallentoft? Como em qualquer escritor, é a forma de escrever. Diferente do que já li até agora, Mons Kallentoft escreve pensamentos e percepções. É a melhor forma que tenho de descrever. Frases curtas. Ou compridas. Pensamentos misturados com acções. Diálogos e monólogos. Primeira pessoa e terceira, muitas vezes, misturadas. Simples, directo, diz o que tem a dizer e pronto. Sem subterfúgios, nem palha, nem utilização excessiva de palavras, nem linguagem poética, embora possa surpreender com algumas metáforas, ou pensamentos mais estéticos. Uma forma de escrita muito própria e eu não conseguiria imaginar este livro escrito de outra forma, esta história levada ao seu termo com outro tipo de linguagem, ou os personagens a darem-se a conhecer por meio de outro qualquer autor.

Ao princípio pode ser desafiante, mas não se assustem, porque não é nada difícil. Quando entrarem na mente e no ritmo de Malin e de Mons, não vão querer voltar a sair.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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