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Literatura

Escrever é deixar uma marca

Nos últimos dias, tenho-me dedicado à escrita, às palavras e aos livros com uma voracidade quase sobrenatural. A cada dia que passa, cresce em mim a maior consciência da magnitude assombrosa de livros que anseio ler e das histórias que ambiciono escrever.

Quiçá porque me surge na mente a figura de um escritor… Luís Sepúlveda. Do alto dos seus setenta anos teria decerto tantas palavras ainda por escrever, mas não. Foi interrompido. Um nome maior, entre as estatísticas que nos malham o pensamento.

O não ser o “ciclo da vida” o responsável pela sua prematura finitude, deixou-me no mínimo, ainda mais transtornada, contemplativa sobre um desígnio maior de estar vivo e de poder deixar de o estar de um momento para o outro, como um simples virar de uma página.

A Morte. Essa nossa fiel companheira. Abraça-nos quando inspiramos; caminha silenciosa de mão dada ao nosso lado numa afeição que não desejamos. E larga-nos somente no último momento em que expirarmos. Princípio, meio e fim. Sem ilusões: a ampulheta da vida não para. Cada grão de areia conta. Para quem deseja escrever. Para quem pretende, Viver.

Talvez considere esta visão de “relação” com a Morte, fria ou macabra. Talvez seja. A verdade é que me ensinou a valorizar a vida como nunca antes o tinha feito. Presumo ter lido essa “filosofia” algures por aí. Não a forjei nem tão pouco consigo particularizar a sua fonte. É irrelevante. O impacto que exerceu em mim e quem sabe em si… Isso sim. Isso importa.

Ter consciência plena de um “prazo de validade” pronto a expirar em cada instante, sem relação direta com qualquer “esperança média de vida”, ou outras âncoras de longevidade, dá-nos um amor ao Existir, ao Ser, uma gana de viver, dificilmente pronunciável em palavras. E diga-se de passagem – ausência de vocábulos não é um infortúnio que me assole.

Esta impermanência que ultrapassa o meu humano entendimento empurra-me com mais veemência a cada dia que passa para as palavras, a dar-lhes corpo e voz. Empurra-me para a fúria de escrever. De viver.

Não interprete “fúria” como pressa, ansiedade, desespero ou sofreguidão nefasta. Longe disso. Esta é aquela fúria tão próxima do ímpeto inocente da criança que desperta a sorrir, com energia plena e vitalidade pura.

Como diz Margaret Atwood, “Escrever é deixar uma marca. É impor ao papel em branco um sinal permanente, é capturar um instante em forma de palavra.”

É isso que procura quem escreve: deixar uma marca imperecível, um sinal permanente, capturando instantes em forma de histórias. Com palavras, por vezes, cruas, nuas, frias e duras; outras vezes, doces, suaves, curadoras e transformadoras. Quem escreve deseja deixar um legado, um mundo mais rico, um testemunho feito de páginas.

Foi isso que nos deixaram com os seus livros, Luís Sepúlveda, José Saramago, Eça de Queiroz, Gabriel García Márquez e tantos outros escritores conhecidos, ou menos conhecidos, já idos, ou ainda entre nós.

Escritores, de crianças interiores resplandecentes de vida, faróis ininterruptos que lhes deram garra para escrever. Linha após linha; palavra após palavra; parágrafo após parágrafo; capítulo após capítulo. Livro, após livro.

Que consigamos ser assim: crianças eternas em corpos maduros, conscientes do seu finito Ser vivendo as suas vidas em pleno. Enquanto podemos; enquanto a nossa página não vira…

A quem escreve ou aspira a escrever, a si, em particular, deixo um sábio conselho: se sentir a sua mão fria, olhe para o lado e sorrie – recorde-se da sua “fiel companheira” e aqueça os dedos furiosamente na sua escrita. Enquanto viver, não deixe nenhuma palavra por escrever!

O que acabei de ler: O Dia dos Milagres, de Francisco Moita Flores, Casa das Letras

Prescrição Literária: uma viagem no tempo para reavivar o espírito de Ser Português, recordando o antes e o depois do 1 de dezembro de 1640, data que “devolveu a dignidade a Portugal” e “um amor que mudou a História.” Está decidido: quando este confinamento terminar vou conhecer Vila Viçosa! É fabuloso quando os livros nos convidam a saltar das páginas para o mundo real. Vou sentir saudades dos dias passados na companhia de João de Bragança, Luísa de Gusmão, Laparduço e Efigénia Pé de Galinha, a bruxa afamada!

O que estou a ler: A menina dos ossos de cristal, de Ana Simão, Editora Guerra & Paz

Prescrição literária: uma história real que mostra que a verdadeira força está sempre dentro de nós e que por mais frágeis que possamos ser, podemos conseguir perseverar. Uma verdadeira lição de vida.

O que vou ler a seguir: Lisboa em camisa, de Gervásio Lobato, Editora Guerra & Paz

Prescrição literária: um livro que nos transporta à cidade de Lisboa em finais do século XIX, uma paródia da época com vislumbres de atualidade. O tema é Lisboa, tendo como cenário as peripécias da família Antunes, dos seus sogros Martim (sem s), da família Torres, do conselheiro com as filhas casadoiras e do Dr. Formigal, entre outras personagens muito caricatas. Lisboa em Camisa foi, desde a publicação em 1882, o mais estrondoso êxito de Gervásio Lobato, jornalista e romancista, com inúmeras edições,  autor hoje esquecido, recordado apenas por uma rua com o seu nome, em Campo de Ourique.

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