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O dinheiro comanda a vida: (sobre)viver em Portugal

Em Portugal, o “sonho americano” há muito que se resume à pesca de botas, quando alguém, como crenças antigas, não nasce em determinada fase da lua onde é traçada a sorte e destino da pessoa.

O país está repleto de sonhos – e honra lhe seja feita -, mas a realidade não é igual para todos. Bem cedo é apresentado aos jovens todas as dificuldades inerentes do que é comandar o seu próprio navio e, em boa verdade, irão comprovar que será sempre demasiado cedo para ser o Comandante e sempre será demasiado tarde para tudo o que daí poderia advir.

O abuso que perpetua na restrição da independência e realização pessoal dos jovens deveria traduzir-se em ato de contradição.

A situação que se verifica é resumida no que Joseph Stiglitz, prémio Nobel da Economia em 2001, disse:

“[os jovens] Em vez de iniciarem uma nova vida, cheia de entusiasmo e esperança, muitos deles confrontam-se com um mundo de ansiedade e medo. Esmagados com o custo dos estudos e empréstimos, que sabem lhes ir custar muito a pagar e que não se reduzirão mesmo que se declarem insolventes, procuram empregos num mercado de trabalho disfuncional. Se tiverem sorte de encontrar um emprego, os salários serão um desapontamento, na maior parte das vezes tão baixos que terão de continuar a viver com os seus pais.”

Embora estas palavras se refiram aos EUA, a semelhança é notória em relação a Portugal e assentam como uma luva.

É evidente que o problema está, claramente, no ordenado mínimo nacional que corresponde a 635€, valor este que se poderia viver tranquilamente se estivéssemos no Luxemburgo ou Irlanda, segundo dados de uma pesquisa feita no Numbeo.

Hoje em dia, é um achado um jovem conseguir um vencimento que lhe seja merecido, dependendo da sua formação, área de actuação ou por simples mérito. A culpa é de quem? Da entidade patronal ou do país que não dá condições suficientes para os patronos abrirem mão de mais 100€ ou 200€ no fim do mês?

O Eurodicas fez uma pesquisa de mercado, baseado no site Numbeo, em 28 de Janeiro de 2020, que nos mostra, por A + B, que um casal para viver bem em Portugal deveria ganhar, em média, 900€ cada um. No entanto, se o casal pretende viver na capital do país, este valor continua a não ser nem ideal, nem suficiente. De facto, o valor perfeito seria de 1.100€ (cada um) para viver bem na região.

Posto isto, o problema persiste com o facto de as pessoas raramente conseguirem salários considerados altos comparativamente ao salário mínimo nacional. Note-se, ainda, que é necessário prestar vassalagem aos impostos no que configura 834,08€ de salário líquido mensal médio em Portugal.

Deste modo, como é que os jovens podem terçar armas pelos sonhos quando o próprio país é o inimigo? Quando outrora o que comandava a vida era o amor, hoje em dia quem o comanda é sempre o mesmo denominador comum: dinheiro.

A sociedade de hoje, com uma simplicidade infantil, divide-se em dois grupos: os ricos e os pobres. Estes extremos declara-se tanto a jovens como a idosos, pois estes últimos, com a pensão média de 330€/mês segundo as estatísticas de Novembro de 2019 da Portada mostra que, por certo, os idosos têm de escolher se querem comer ou se querem comprar os medicamentos.

Após anos a trabalhar e tantos de forma árdua, vislumbra-se hoje um cenário atípico: jovens desempregados e idosos trabalhadores, pois a idade para pedir a reforma (e sem penalizações) parece que lhes foge a cada dia que passa, estando sempre um passo atrás. Já com as subvenções vitalícias e seus respectivos abonos dos deputados que nos fazem questão de exibir os dois pesos e as duas medidas existente no país, brindam-nos de forma rude e injusta todos os dias, a cada dia de trabalho e a cada dia de reforma.

Os novos desfeitos com sonhos que ficarão por realizar e os velhos desfeitos em sonhos nunca concretizados é apenas conversa de elevador pois, neste contexto, nada muda nem nada se transforma.

A toalha já há muito que foi atirada ao chão, tanto por novos como por velhos e, francamente, não há nada mais triste que desistir por se estar saturado do conto do vigário e que a utópica frase “vais conseguir” não passa de uma banha da cobra.

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Rita Morais de Oliveira

Sem apresentações hollywodianas, nasci em 1988 no Nordeste Transmontano, Portugal. Encontrei o meu habitat na escrita desde que comecei a ler e a escrever. Nos meus tempos livres, além de Freelancer de Conteúdos, também sou uma aspirante escritora em (eterna) construção e indiscutivelmente contra o Novo Acordo Ortográfico. Com dois contos editados nas Antologias "À Margem da Sanidade" e "O Penhasco"; outro publicado na Revista Pulp Fiction e um livro em criação. Prevalece sempre o mesmo género literário: policial, thriller, suspense e algum terror psicológico. Como o nosso velho amigo Albert Einstein disse: "Criatividade é inteligência divertindo-se."

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