A História dos ABBA

Não seria tão benevolente na apreciação deste livro caso se tratasse de outra banda, pois, embora o relato da história e curiosidades sobre os ABBA seja bom, pode ser fastidioso para quem não vibra com o som do quarteto sueco.

Os ABBA acompanham-me desde os onze anos, quando a primeira colectânea (decente) foi lançada depois da separação da banda, em 1992. Desde aí, muitos álbuns, concertos-tributo (quatro, pelo menos) e uma ida a Londres para assistir ao espectáculo ABBA Voyage, no ABBA Arena. Faltava um livro.

Jan Gradvall escreve descontraidamente sobre os ABBA, mas não só: como conhecedor profundo da cena musical há 40 anos, oferece-nos um retrato dos movimentos e influências em torno da banda sueca nas décadas de 60, 70 e 80.

Os muitos detalhes poderiam ser demasiados se o meu interesse pelos ABBA fosse menor. Só que eu gosto dos ABBA sem nada entender de música e conhecer muito pouco dos movimentos e artistas que formam a história dessa arte.

As dancebands, o raggare, a cena prog, o perfil de negociante agressivo do agente, Stig Anderson, o nascimento da onda gay em torno dos ABBA e de como esta ressuscitou a sua música, as histórias dos quatro membros ou as críticas ferozes de que foram alvo na Suécia pelos mais puritanos por serem demasiado comerciais, tudo isto é contado pelo autor sem pretensões.

A indumentária do quarteto sueco merece uma entrada dedicada neste artigo, dada a justificação descoberta com a leitura: uma lei da altura dizia que ao uso de roupas que não pudessem ser consideradas normais no quotidiano era-lhes concedida a dedução fiscal. Daí o folclore das cores, formatos e tecidos das vestes dos ABBA ao longo da carreira, e que acabaram por se tornar num traço característico – tudo conta para amealhar uns trocos, e eles sabiam aproveitar as oportunidades como ninguém.

Uma última descoberta neste livro: os ABBA não tiveram na Suécia a popularidade com que o resto do mundo os agraciou. O principal argumento era serem “demasiado comerciais”, tanto na música como no negócio (€). Foram alvo de inúmeras críticas de representantes de movimentos musicais mais “puros”. Ainda que alguns possam de facto ter pensado isso, é para mim óbvio que existe uma generosíssima dose de inveja nesta atitude. Os ABBA pura e simplesmente estavam-se nas tintas para o puritanismo, para se encaixarem num qualquer movimento ou para o que outros mais cinzentos pudessem pensar. E ainda bem que assim foi (a conclusão não está no livro – é minha).

A História dos ABBA é um livro que entretém, da mesma forma que as harmonias Slipping Through My Fingers, My Love My Life, Angeleyes ou If it Wasn’t for the Nights me embalam sempre que as oiço. A leitura também se faz destes prazeres.

[Este texto não está escrito segundo o novo acordo ortográfico]

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