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Crónicas

Seis nomes para um bote

Num destes dias de sol, deambulei por entre as embarcações atracadas na marina. Gosto de ver os nomes, inventar-lhes uma inspiração. Reparo na construção, nos cabos, no perfil da popa, e desta vez atentei na baleeira ou barco salva-vidas que num amarelo brilhante anunciava ao mundo: capacidade 6 pessoas. E num dramatismo marítimo, lembrando o Titanic, a Revolta na Bounty e tantos outros, revi a minha vida e dei nomes aos 6 que me acompanhariam em caso dum catastrófico cenário. Seis apenas, os seis do bunker, da radioactividade, da calamidade, da guerra. Os meus seis. Os de sempre, e quero crer, para sempre.

Viver é um equilíbrio entre fazer, manter e perder amigos. Se nos lembrarmos dos tempos de bibe, tínhamos tantos amigos! Com uns gostávamos de cantar, com outros brincávamos com bonecas, com outros às garagens, com outros ainda corríamos, saltávamos ao elástico,  com sorte fazíamos tudo isto basicamente com os mesmos. Ao longo da vida, com a presença em turmas diferenciadas ou actividades diversas, fomos adicionando novos amigos, perdendo alguns, porque passaram a frequentar outros locais ou simplesmente já não nos dávamos como antes, mas havia sempre aqueles que permaneciam. Quando somos miúdos, amigo é aquele que nos é agradável, com quem brincamos, rimos e nos divertimos. Com a idade, tornamo-nos mais exigentes, é preciso mais do que a agradabilidade para suster uma amizade.

Um estudo conjunto realizado pelas universidades de Aalto (Finlândia) e Oxford (Inglaterra) fez a análise da dimensão das amizades em diferentes idades, tendo estabelecido como início da perda das mesmas os 25 anos. O dimensionamento desta grandeza foi efectuado tendo em conta as chamadas telefónicas realizadas num mês. Aos 25 anos, as mulheres ligavam a cerca de 17 pessoas, enquanto os homens ligavam a 19. Esse número foi decrescendo, até estabilizar aos 80 anos, sendo que as mulheres ligaram a 8 pessoas apenas, e os homens a 6. Como se explicam estes números?

Por norma, quando somos crianças ou adolescentes, somos muito mais democráticos nas amizades. Gostamos de quase todos, brincamos com quase todos. Temos quase todo o tempo do mundo, e gostamos de ter muitos amigos, de preferência de diversos géneros: o amigo inteligente, o bem humorado, o divertido, o louco, o que nos estimula a sair de nós, o que nos contêm os devaneios, o que nos eleva, o cúmplice, o provocador, o certinho, o responsável e o desaparafusado. Com todos e com cada um, crescemos um pouco, permitindo-nos evoluir, conhecer outras formas de pensar e ser e, também, decidir sobre o tipo de pessoa que apreciamos muito, pouco ou nada.

Com a idade adulta, o tempo fica mais condensado, entre emprego e família, e a disponibilidade para amizades  é menor. Nesse ponto, o casamento surge muita vez como o mau da fita. Um casamento não substitui as amizades, algumas das quais desde os anos de dentes de leite, mas muitas vezes a cara metade não partilha desse entusiasmo, ou não tem amigos  próprios. Daí, ocorre uma de duas coisas: ou se respeita essa necessidade de parte a parte, ou se anula, o que mais cedo ou mais tarde resulta numa factura muito alta. Muitas vezes ganhamos amigos com os casamentos, os amigos do outro. Outras vezes, em caso de divórcio, perdemos. Daí ser tão importante que cada elemento do casal tenha os seus amigos especiais, não apenas conjuntamente, mas também exclusivamente. Com os amigos dos amigos ocorre o mesmo: vamos adicionando amizades, sempre que a ocasião e o interesse pessoal o permite. E subtraindo, se o desagrado se instala.

Contudo, na idade adulta,  talvez amigo não seja só aquele compincha com quem vamos passear ou sair noite fora, beber uns copos ou largar umas larachas,  mas alguém com quem temos uma cumplicidade maior, e que muitas vezes se denota em horas de conversa sem fim. São aqueles que habitualmente admiramos, que nos fazem felizes, a quem reconhecemos qualidades e cujos defeitos chegam a ser amorosos, ou pelo menos não nos impedem de os considerar excelentes. São aqueles que nos entendem sobretudo nos silêncios, ou no ritmo das palavras, no tom da voz ou que nos atestam o estado de alma por indicadores que passam despercebidos à maioria. São os que amorosamente nos dizem que estamos a ser idiotas, ou que nos fazem crer no melhor de nós, quando nos parecemos esquecer de quem somos.

Há um conceito engraçado que é a Teoria da Savana. Segundo esta, as pessoas que têm um quociente de inteligência maior, são habitualmente mais urbanos e mais solitários, por opção. Ao que parece, aqueles que são menos inteligentes terão necessidade de um grupo de apoio mais extenso que lhe permita a sobrevivência, isto à luz do progresso social,  enquanto os mais inteligentes se bastarão mais e inclusivamente usam a sua solitude para recuperar dos excessos da vida em sociedade. Embora curiosa, parece-me limitativa, descurando questões como a incapacidade de interação social ou questão de personalidade mais ou menos expansiva. Nem todos os génios são solitários, nem todos os solitários são génios.

Eu tenho a minha própria teoria, puxando à técnica marítima, chamei-lhe a Teoria do Lastro.

O lastro, é a água contida no fundo do porão dos  navios, que lhes assegura o equilíbrio. É uma massa de água, mais ou menos constante, mas que se pode fazer variar, lastrando (enchendo) ou deslastrando (libertando) para promover a harmonia de pesos a bordo, como sendo a própria carga, ou ausência dela, o combustível, o calado  (altura da parte submersa)  enfim, todas as variantes que possam por em causa o equilíbrio do ponto central. Arriscando a alegoria, há aqueles amigos que são permanentes a bordo, no tanque de lastro principal, como os amigos de sempre e para sempre, e os outros, tanques secundários, que são amigos duma temporada, sazonais ou duma viagem apenas. O equilíbrio vai sendo efectuado  a cada dia, mediante o relacionamento existente ou a falta dele, a confirmação das empatias ou a ausência destas.

Há quem diga que se se perdeu um amigo, nunca o foi. Discordo, pode até ter sido amigo, só não foi muito, nem impactante. Pode ter falhado porque a ligação não foi suficientemente forte,  não existiu a cumplicidade necessária, a reciprocidade desejável ou a indispensável (necessária e suficiente como na matemática) consideração mútua.  Poderão ter sido amigos, só não o foram para sempre. Como o lastro secundário, que se manobra conforme o equilíbrio da nave, e não reúne condições basilares para ascender a principal.

Ainda assim, a viagem continua, que um navio está seguro em porto, mas não foi para isso que foi construído.

Oh, I get by with a little help from my friends
I get high with a little help from my friends
Gonna try with a little help from my friends”

The Beatles

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com especialização em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos, e fui cronista na revista on line Bird Magazine. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

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