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CulturaMúsica

El Invento

‘Y por agradecer

Lo estraño de simplemente ser

Un alma curiosa singular

Compleja en su calma y tempestad

 

Dime por qué será

Dime por dónde vas

Dime

 

Y en el amanecer

Cuando todo va cambiando de color

Y vemos aparecer un mundo

Lleno de belleza y de dolor

 

Dime por qué será

Dime por dónde vás

Dime de dónde somos

Dime

 

Y dime por qué será

Dime en dónde estamos

Y dime por qué

 

Y por pertenecer

A la gente del libro

Pretendiendo entender

Los enigmas del Universo

 

Dime por qué será

Dime por dónde vás

Dime de dónde somos

Dime, dime

 

Y dime por qué será

Dime en dónde estamos

Y dime por qué.’

 

Esta é a letra do novo single do sueco José González, El Invento, que parece ser a primeira gravada na língua espanhola, invocando os laços que o unem, pela ascendência, à Argentina. Chega depois de um interregno de seis anos, deixando nota de que nada sustenta a Música como o Silêncio.

Porquê fazer uma transcrição?

Primeiro, porque sou uma amadora no original sentido da palavra.

Segundo, porque desconfio da crítica musical.

Começo por me salvaguardar uma vez que não sou entendida na matéria, mas uma consumidora enamorada, cuja ligação à música vem desde sempre, a ouvir a música dos meus pais (ainda alguém te ouve, Joe Dassin?!), depois a começar a fazer as minhas escolhas e a abrir espaço às escolhas dos outros. Como a maioria de nós, caminhei na música e a minha vida vai-se edificando sobre uma trama de harmonias, selando alguns momentos para a eternidade, desde logo vulneráveis a um avivar de memória como nenhuma explicação consegue, trazendo ao presente, em instantes, uma sensação de outrora e envolvendo os momentos em afagos de ondas sonoras – a música está para a alma como a massagem está para o corpo.

Depois, perdoem-me os entendidos, duvido da crítica musical. Com respeito pelos conhecedores do ofício, que informam e acrescentam dados que podem orientar os amadores, como eu, parece-me que a crítica retira metade da magia que acontece quando ouvimos música.

Nietzsche defendia que a Música era do domínio do Sublime, do que não tem forma, do que não pode ser abarcado pelos limites da Razão, ao contrário das Artes Plásticas, que pelas suas características mensuráveis, podem ser alvo de uma análise racional, que nos permite de um modo consciente avaliar as cores, as linhas, o tema, a forma. Como seria ou como será olhar para o Guernica desconhecendo em absoluto a biografia de Picasso, a Guerra Civil Espanhola e o contexto em que foi pintado? Cada vez parece ser mais difícil estabelecer um contacto puro com a obra de arte, pois já temos uma série de conjecturas quando a observamos – aliás, escolhemos observar algumas delas em função dessas conjecturas.

As análises críticas que se fazem sobre Literatura, Cinema, Pintura, Arquitectura, Escultura parecem-me analisar tudo o que lá está, na obra. Podemos concordar ou não com opiniões e perspectivas e questionar o posicionamento estético daquele que analisa, mas podemos ‘ver’ de que fala, ao passo que a Música se esquiva deste enquadramento pela sua própria natureza, o informe.

Da Música podem falar dos acordes, da escolha da banda, do produtor, da orquestra, dos arranjos, da comparação meio forçada com trabalhos anteriores, enfim, podem falar de inúmeras coisas e, mesmo assim, a Música escapa-lhes das mãos, da escrita, da opinião. Rilke, no seu Cartas a um Jovem Poeta, declarava: “ser avesso a qualquer intenção crítica”, pois que nada estaria “mais longe de tocar uma obra de arte do que palavras críticas (…). As coisas não são tão apreensíveis nem tão dizíveis como nos querem fazer crer (…) desenrolam-se num espaço onde as palavras nunca entram.” O que me parece verdade no que respeita à Música.

A Música pede fruição. Ou se gosta ou não se gosta. Tornamo-nos nós o xilofone e é a Música que nos toca, e devemos entrar na viagem passivamente, sem a actividade da razão.

Quanto à música pimba, como se chama, há gente que a considera menor, orelhuda, fácil, que responde sempre ao requisito da linha de montagem que a produz, mas é por isso que quem gosta dela gosta menos dela? O Jazz, música complexa, envolto numa admiração intelectual, a Bossa Nova,  a música clássica, é por alguém entendido na matéria nos recomendar que vamos gostar? Podemos ir conhecer, com certeza, mas não necessariamente gostar. Uso aqui a palavra gostar, mas devia encontrar uma palavra que traduzisse a expressão ‘acender emoções’. O que quer dizer ‘essa música é boa’ senão a opinião de alguém que enforma num conceito racional e dicotómico algo que a fez sentir bem, identificado, em comunhão?

A Música transporta-nos ao essencial e primordial, escapando às construções intelectuais que tendemos a fazer. É fruir. É deixar-se ficar ali numa sensação anterior à razão e gozar.

O que se diz da música é, em certa medida, poluição e, por isso, o nosso contacto com ela não ganha em ser intermediado.

Optei, assim, por transcrever o poema para fazer menor o meu papel de permeio sobre uma música que me encantou pelo trabalho de depuração que lhe supus, por me transportar nessa busca de pureza e simplicidade, como que a podar ramagens não essenciais.

Em relação à Música podemos fazer convites, pouco mais.

Deixo o meu.

Joana Martins

Sou a Joana, fácil de convencer com Sol, mar (tão cliché e tão verdade), viagens, leituras, aprender, animais, conhecer, pessoas, yoga, crossfit (a aprender a lidar com os meus paradoxos), caminhadas, Arte, boas conversas, amigos, Música (nem toda), amores, chocolate, Filosofia, palavras, Ericeira, Literatura, alimentação saudável, Natureza, bons encontros e uma insatisfação latente em fase de mitigação. Não compreendo quem continua a deitar lixo no chão e no mar. Aviso aos incautos: posso pensar demais...

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