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Crónicas

Um comboio fora da linha

Começo a ficar preocupada com o meu fascínio com as carruagens e com o revisor, todas as manhãs. Com o conforto que o banco, onde não tenho espaço para pôr as pernas direitas, me proporciona. Com o tempo livre que ocupo e com o mundo que descubro numa hora.

Todos os dias acho que será um lindo e maravilhoso dia, onde terei mil oportunidades de comunicar com pessoas desconhecidas nos transportes e perguntar-lhes como corre as suas vidas. Literalmente. Quanto elas correm para poderem respirar fundo nos bancos duros.

Só que todos os dias me engano. Às segundas, a única coisa que encontro é o sono profundo com direito a sonhos e com pontualidade britânica suficiente para terminar, quando chego ao destino. Às terças, quartas, quintas e sextas farto-me de encontrar pessoas. Todas no mesmo sítio. Dentro de mim.

É brutal como consigo passar todos os dias por 5 ou 10 pessoas que são sempre pontuais à chegada do comboio e todos os dias as ouço a contar algum novo episódio das suas vidas atribuladas. Imagino-lhes uma vida completamente diferente do que na verdade devem ter. Sonho por elas o que elas dizem que não conseguiram sonhar, porque tiveram a noite toda acordados a fazer trabalhos.

Enganam-se se acham que eu adoro todos os dias cruzar-me com mais de 2 mil mãos no corrimão. Todos os dias desejo que o comboio fosse só meu, onde pudesse correr de uma ponta à outra e esticar as pernas, enquanto estudo.

Olham para mim de lado, quando não tive tempo de comer em casa, porque comecei a corrida antes das 7 e lhe tento proporcionar uma visão de um pequeno almoço digno de um guerreiro.

Riem-se baixinho, quando respiro demasiado alto, enquanto durmo. Mal eles sabem que estou a idealizar o mecanismo perfeito de todas as carruagens item sobre a mesma linha. Da velocidade adquirida ser sempre constante e de chegarmos sempre à mesma hora.

Perdão, quando ouço a voz da mulher que mais odeio no mundo sem nunca a ter conhecido a dizer: “Comboio suburbano CP encontra-se com um atraso de 5 minutos, pedimos desculpa pelo incómodo causado.” Dou um nó no estômago e conto até um número suficiente que me ocupe tempo até ver o maquinista arrogante e perputente.

Até isso me entusiasma. É tão fácil olharmos para alguém e percebermos que ela não passa da representação de uma realidade. Às vezes a nossa própria.

É incrível como uma viagem de uma hora nos pode dar ou tirar anos de vida.

Contudo, lá está tudo depende de como o revisor quiser levar a chatice. Se decidir que deve implicar comigo por ser a única rapariga praxada e com um cheiro peculiar, ou se me ri e diz atire toda a água que tem espalhada na mala para o chão do comboio que as pessoas precisam de um banho de boas energias.

E cheguei e o meu casaco ficou novamente lá dentro. Menos um. No meio do calor humano do comboio das 7:45 não há nevoeiro da ponte, que devia ser móvel, me atinja.

One Comment

  1. “É incrível como uma viagem de uma hora nos pode dar ou tirar anos de vida”… Subscrevo!…

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