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O milagre

Caminho ao lado dele. Olho para ele e sorrio. Não consigo perceber se estou mais feliz por ele estar ao meu lado, ou por hoje ser o primeiro dia do resto da minha vida.

O meu pai acabava de recuperar de um atropelamento que quase o matou. Meses em coma, de uma agonia imensa, sem saber se ele acordaria. O milagre. E, depois, meses sem fim de fisioterapia, de reaprender absolutamente tudo, e de aulas para ele se adaptar à sua nova realidade: tinha ficado surdo com o acidente. Eu, ele, a minha mãe e a minha irmã mais nova a termos aulas juntos, de língua gestual, com um professor particular. A aprendermos a nossa nova forma de comunicação, de união, de adaptação a uma nova vida.

Agora, sinto-me feliz por ele poder estar ao meu lado, por não o ter perdido. Por ele conseguir sorrir e falar comigo, por ter voltado a ser quem era. Exactamente a ser quem era. Aperto-o um bocadinho mais, o meu braço entrelaçado no dele, e ele olha para mim, com lágrimas nos olhos e uma expressão de absoluta felicidade e orgulho. Sinto as lágrimas a quererem cair também (raios, vou estragar a maquilhagem!).

À nossa frente, a minha nova vida, que me sorri e me espera ansiosamente.

Continuamos a caminhar, a saborear aqueles últimos momentos em que eu sou só a menina dele. Quero dizer-lhe tanta coisa! Obrigo-me a lembrar-me que aquele não é o fim, é apenas um começo, um novo e maravilhoso começo, que não apaga nem deixa perder nada. Vou continuar a ser a menina dele, e vou poder dizer-lhe mais tarde tudo o que quero dizer agora.

No altar, espera-me o meu amor, e o meu pai toca-lhe no ombro, como um convite, uma segurança, e uma ameaça ao mesmo tempo. “Toma bem conta dela”, é o cliché que diz aquele toque. O meu amor toma-me pelo braço, e a sua expressão é única, iluminada, carregada de vontade que o futuro comece já. Quero beijá-lo, mas ainda não chegou a hora. Pergunto-me se é uma ofensa ao casamento beijá-lo antes de o padre deixar, e tenho vontade de rir.

Olho, antes de começar a cerimónia, para o meu pai, e toco no peito com o dedo médio da mão direita e abano suavemente. Ele sorri, e imita o gesto. “Amo-te”, confessamo-nos.

O milagre

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Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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