Ponteiros sem tempo procuram-se

Há umas semanas, o meu relógio estragou-se. O pulso sentiu falta do controlo permanente dos ponteiros e os olhos fartaram-se de olhar para o vazio. Para compensar, o telemóvel sentiu a pressão de estar sempre a ativar o ecrã, apenas para ver quatro números separados por dois pontos. E, na pressa de saber quanto tempo passava, criei um novo hábito matinal: chegar depressa à zona da igreja e erguer a cabeça para o seu imponente relógio.

Tomar consciência de tudo isto reforçou uma conclusão óbvia, mas dramática: ninguém ganha a corrida contra o tempo. Pior do que isso: a grande perda somos nós.

Nessas semanas, os meus ponteiros pararam, mas o tempo não. O relógio deixou de funcionar, mas as tarefas domésticas, o trabalho, os stresses incontroláveis, os dedos no teclado, as mensagens trocadas à distância continuaram a ocupar horas. Horas em que mal me ocupei a mim.

De alguma forma, estas banalidades trouxeram-me de novo as questões asfixiantes do início da adolescência: Onde está o sentido de tudo isto? Será que alguém nos controla à distância? Criarmos hobbies serão formas de nos enganarmos? Será que realmente amamos o que fazemos ou convencemo-nos disso para sobreviver? Porque é que estudar e trabalhar é a ordem certa das coisas? No fundo, porque é que temos que passar o tempo?

No final, tudo se resume a passar os dias o melhor que podemos. Contudo, as obrigações básicas do dia a dia impedem-nos de cumprir essa premissa aparentemente tão simples. E, neste vai e vem, só queríamos poder ter mais tempo. Mas para quê? Dormir, talvez. E, com esta resposta, a ironia adensa-se.

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