fbpx
Sociedade

Não sejas má para mim…

Ou a guerrilha na sororidade feminina

Gosto muito de falar com a miudagem. Parece que eles têm uma capacidade de simplificação, dir-se-ia quase de evidência,  das questões principais. Talvez essa seja uma consequência  derivada da pouca experiência e diminuta vivência de complexidade, ou, pelo contrário, uma maior habilidade para se focar no realmente importante. No outro dia falava com uma menina de 9 anos que me dizia de forma explícita que não tinha amigas porque elas não eram confiáveis. Que preferia as amizades masculinas, que não a criticavam pelas costas, não a invejavam, e apenas brincavam e se divertiam. Fiquei a pensar no assunto, um pouco indecisa entre admiração pelo facto de ela ser precocemente arguta na análise, e a tristeza por ela ser apenas uma criança que vive a ausência de amigas de facto.

É um facto que as relações entre mulheres são complexas. Seja no contexto familiar, de trabalho ou informal, parece haver uma ideia generalizada que as mulheres são mazinhas para as suas pares.

Sendo mulher, obviamente que já senti essa tensão por várias vezes. E contra mim falo, muitas vezes também prefiro a companhia masculina pela sua simplificação mental. Não, não estou a ofender os homens, considerando-os básicos,  mas tal como as crianças, os homens em geral tendem a não dar demasiada importância a assuntos desimportantes, e às vezes eu própria gostaria de ser assim, ainda que considere que muitas vezes raia a desinteligência emocional.  Já pediram a um homem que vos resuma uma longa reunião de condomínio? Experimentem e verifiquem que nada aconteceu, no entanto,  posteriormente as vizinhas darão extensos detalhes de tudo. Provavelmente estiveram em reuniões diferentes. Confusos? De facto não é fácil explicar, sendo eu uma mulher. Um homem talvez o expressasse em duas frases.

Não quero crer que existe uma maldade intrínseca. Não acho que seja isso. O que me parece, é que a mulher, na sua riqueza emocional e sensibilidade, faz frequentemente leituras mais alargadas sobre os acontecimentos, sejam eles importantes ou regularidades do dia a dia. Nunca é apenas aquilo. Dizem que a complexidade é sinal de evolução, e se formos a considerar a biologia, facilmente se comprova que entre a ameba unicelular e um cérebro humano, há um mundo de progressão. Se isso simplifica a vida? Não, de todo.

Claro que essa tendência conflituosa não é própria das mulheres. Arrisco mesmo dizer que há homens com essa veia, maldosamente atribuída às mulheres, extraordinariamente desenvolvida. Factos que se explicariam eventualmente com TPM ( tensão pré-menstrual) em último grau: nervosismo, conversa bélica, gestos bruscos, abruptas alterações de humor, não fosse o facto de a biologia não lhes ter atribuído a menstruação. Assim, a gravidade deste TPM masculino é de uma urgência gritante, e ao contrário da feminina, não há uma explicação fisiológica: não se sabe porque vem, qual a causa, e pior, quando acaba. Mas adiante.

Não querendo defender o indefensável, e reconhecendo que essa guerrilha muitas vezes acontece, parece-me importante tentar compreender as causas. Não sei se Freud explica, na sua sexualização de tudo, mas poderei referenciar algumas atenuantes, tendencialmente universais:

 – as mulheres fazem leituras mais profundas. Por um lado são mais sensíveis  à expressividade física, indo além do dito, apreendendo olhares, tons de voz, expressões faciais, que complementam a frase emitida. Ou seja, dispõem de mais informação a tratar, pelo que as reações serão necessariamente mais justificadas;

– a sensibilidade manifesta-se não só na apreensão como na reação a factos, muitas vezes (mea culpa) extrapolando a dramatização e o significado de actos e acontecimentos;

– a reação das mulheres à crítica e ao julgamento alheio é por norma mais intensa e sofrida, sobretudo quando advém daquelas que deveriam protegê-las;

– a necessidade de aprovação facilita a integração em sociedade, e aqui há uma herança de tempos não igualitários, em que a defesa pelas leis ou costume não lhes era corrente.

Assim, quando a valência da mulher é posta em causa, sobretudo por uma voz feminina, há um sentimento de traição de grupo associado, e a conduta reactiva é exponenciada. Além de que, obviamente, a luta pela demarcação positiva, fruto de uma autoestima faminta,  inclui muitas vezes o menosprezo dos seus pares, a desvalorização da outra.

A questão da desvalorização alheia também é  praticada pelos homens, mas de forma mais directa . Mais uma vez sem a desconsideração de os comparar a animais que encontram o seu lugar na matilha através de duelos e provas físicas, mas não perdendo essa similitude, os homens debatem-se olhos nos olhos, de forma muito distante dos pensamentos ocultos e insinuações femininas, em que, reconheço, somos sumidades.

Conheço 2 homens que se debatem agressivamente em assuntos de trabalho. No entanto, pela hora de almoço, é vê-los a almoçar em amena cavaqueira. Talvez isto seja uma mais-valia que as mulheres por norma não têm. Vou lá eu almoçar com quem me ofendeu? Nunca. Os homens no entanto têm essa capacidade, o que me faz admirá-los.

Não sei se há uma conclusão para este tema. Retirando o determinismo sexual e histórico, cada uma de nós tem em si a opção de repensar as suas atitudes, e usar esta riqueza emocional que indubitavelmente temos para factos mais construtivos. Quanto aos homens, e deixem usar-me do sarcasmo  que me assiste, talvez não tenham todos os receptores emocionais ligados e portanto trabalhem com informação filtrada e  condicionada. Ou então, e aqui me retrato, talvez sejam bem mais eficientes na identificação do que lhes vale a apoquentação.

Sandra Ramos

Sou formada em Gestão, com Pós-Graduação em Transportes Marítimos e Gestão Portuária, área onde desenvolvo a minha actividade profissional. Sou adepta da causa animal e voluntária ocasional. Comecei as minhas aventuras na escrita em 2017, com uma Menção Honrosa num Concurso de Autores, tendo a partir daí participado em algumas Antologias e num Concurso de Speed Writing. Fui cronista na revista Bird Magazine e edito uma página e blogue do mesmo nome: Escrevinhar / Sandra Ramos. Descobri que não vivo sem escrever. Apercebi-me, também, que são as nossas características temperamentais mais difíceis que nos aproximam das pessoas com ousadia suficiente para nos amarem.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Veja Também
Fechar
Botão Voltar ao Topo
%d bloggers like this:

Adblock Detectado

Por favor, considere apoiar o nosso site desligando o seu ad blocker.