Ler De Quatro, de Miranda July, é como encarar um espelho que não perdoa — mas também não julga. Um espelho que devolve a verdade das rugas, o silêncio das dúvidas, o eco das decisões tomadas (e das que ainda pesam no peito). A protagonista, uma mulher de 45 anos, artista e mãe, nos guia por esse território indomado da meia-idade, onde passado e futuro se entrelaçam, e onde ser mulher deixa de caber em rótulos prontos.
Aos 50, não li esse livro — vivi-o. Reconheci naquela personagem sem nome a inquietação que também me atravessa. Há uma familiaridade quase visceral nos seus passos errantes, no corpo que muda sem aviso, na mente que lateja desejos antigos e novos, misturados, confusos. Há, sobretudo, o espanto de ainda não saber exatamente quem se é — e a liberdade que nasce quando a gente finalmente aceita isso.
A personagem de July busca, de forma quase clandestina, algo que a reconecte com ela mesma: um encontro com o desconhecido, um gesto de ousadia, uma transgressão íntima. Não é a busca pelo outro — é a busca por si. Pela vibração que a rotina engoliu. Pela chama que, apesar das decepções, ainda arde. Por aquilo que nos recorda que não estamos terminadas, apenas em trânsito.
E há tropeços. Há vergonha. Há medo. Mas também há beleza nesse percurso imperfeito. O livro não romantiza. De Quatro não é sobre soluções fáceis, mas sobre escavar fundo, mesmo quando dói. É sobre entender que descobrir-se pode levar tempo. E que esse tempo, por mais que venha com perdas, também carrega possibilidades antes inimagináveis.
Miranda July oferece uma personagem que desafia o papel engessado da mulher que envelhece em silêncio. Ela não quer desaparecer, nem ser apenas a mãe, nem só a esposa. Ela quer ser — seja lá o que isso signifique aos 45, aos 50, aos 60. Ela quer sentir. Quer errar. Quer dizer sim ao desconhecido. E não mais pedir desculpas por isso.
E o mais interessante: não sabemos seu nome. E talvez essa ausência diga muito. Ela pode ser qualquer uma de nós — e por isso é fácil (e doloroso, e potente) se ver nela. Porque a meia-idade é um território mal representado, frequentemente silenciado, especialmente para mulheres. É uma fase atravessada por invisibilidades, mas também por libertações. Por perdas, mas também por primeiras vezes que não são menos importantes só porque chegaram depois.
Ler De Quatro é aceitar que o processo de tornar-se inteira pode ser longo. Que há força nas hesitações, que há dignidade nos recomeços, que há algo profundamente revolucionário em parar, olhar o próprio reflexo — mesmo trincado — e dizer: “agora, eu me reconheço”.
Este livro não é só sobre uma mulher. É sobre todas nós que, em algum momento, paramos diante do espelho e nos perguntamos: “e agora?”. É sobre o direito de continuar se reinventando, mesmo quando o mundo parece querer nos parar no tempo.
Recomendo esta leitura como quem estende a mão a uma amiga: com carinho, com cuidado, e com a certeza de que há muitas de nós vivendo essa travessia. De Quatro é mais do que literatura — é um sopro de liberdade, uma lembrança de que nunca é tarde para nos tornarmos quem sempre fomos, mesmo que só agora tenhamos encontrado coragem para ser.
Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Português do Brasil.
Mais um texto lindo e profundo, sempre em busca dessas camadas na pele da mulher. Parabéns!
Que bom que o texto te tocou! Se um dia tiver a chance de ler o livro, acho que você vai encontrar ainda mais dessas camadas por lá.
Interessante!
Achei a narrativa um pouco fluida, por assim dizer, Vera, mas as reflexões que o livro nos provoca tornam a leitura válida.