O Anúncio

Sendo errado atribuir um rótulo a uma pessoa, apenas podemos afirmar que Mauro tinha uma vida igual à de tantos. Pouco lhe faltava para atingir a meta dos 30 anos de idade e ainda não tinha aprendido a viver sozinho, apesar de já o fazer há algum tempo, insistentemente, dia após dia sem se atrever a alterar o que quer que fosse.

Todos os dias eram iguais. Acordava com o telemóvel a vibrar ao som Beach Boys, tomava banho, vestia um pólo, calças chino e sapatos de vela. Comia uma tigela de cereais e fazia o caminho para o escritório a pé, vinte minutos apenas interrompidos no café do Sr. Rodolfo para comprar uma sandes e um café em copo de papel que ia bebendo enquanto caminhava, todos os dias o mesmo caminho.

Entrava no escritório, cumprimentava o segurança, apanhava o elevador para o seu piso, mais uma ou outra saudação sem história e sentava-se na sua secretária. As quatros horas seguintes passava-as a analisar dados e preencher relatórios meramente técnicos. Ao almoço, retirava um refrigerante da máquina do bar e regressava à sua secretária onde comia a sandes. Monitor em preto, apenas se via a si e à sua solidão. Mais quatro horas e o regresso pelo mesmo caminho, paragem no Sr. Rodolfo para comprar jantar e estava de volta a casa. Jantava no sofá a ver televisão, as notícias depois um filme qualquer. Com os olhos cansados da luz falsa da televisão, dava o dia por terminado sem que nada tivesse acontecido que merecesse ser recordado.

No dia seguinte, tudo igual. Mauro sabia que era assim, passava incógnito pelo dia e ao mesmo tempo parecia que ninguém sabia que ele ali estava. Ninguém o procurava, ninguém lhe sorria, ninguém dava por ele, era como se ele nem existisse.

Com a mente a fervilhar de negativismos, decidiu criar uma espécie de anúncio, daqueles que vemos colados nos postes com tiras com um número de telefone, para os interessados arrancarem. Na folha, centrou o seu rosto numa fotografia sem expressão. Por cima, em letras maiúsculas: “DESAPARECIDO”. Por baixo: “Se viu esta pessoa ligue para este número.” E o seu próprio número de telefone.

Imprimiu duas dezenas de anúncios e foi dormir. No dia seguinte fez tudo igual ao que era suposto fazer, mas no caminho para o escritório, foi afixando as folhas em postes de forma aleatória. Ao final do dia, saiu do escritório, percorreu o caminho de volta a casa, parando como sempre no Sr. Rodolfo. Em casa, jantou, viu televisão como sempre, os mesmos programas de sempre, até adormecer.

Foi só ao fim de quatro dias que o telemóvel tocou, número privado. Hesitou, depois atendeu:

Boa tarde. Quem fala?Perguntou Mauro.

– Boa tarde. – Respondeu uma voz gasta, seca, fria. – Estou a ligar porque vi o anúncio de uma pessoa desaparecida. Eu vi essa pessoa.

– Bom… – Mauro ficou sem saber o que responder. Na verdade ele não tinha considerado a hipótese de alguém ligar para ele próprio por causa do seu próprio desaparecimento.

– Eu tenha essa pessoa comigo! Se a queres ver com vida, estou no jardim em frente ao quiosque laranja!

– Desculpe? Mas…

A chamada terminou. Mauro nem soube o que pensar. Certamente alguém a gozar com ele. Mas quem? Ele não tinha propriamente amigos que o pudessem reconhecer, muito menos engendrar uma brincadeira daquele género.

Ao fim das suas oito horas de trabalho encetou o caminho para casa com um entusiasmo que há muito não sentia. Um quiosque laranja ficava em caminho e situava-se em frente a um pequeno jardim. Só podia ser aquele. Chegado começou a andar lentamente olhando com atenção para todos os rostos ali presentes. Não conhecia ninguém. De repente ouviu-se um “aqui!” por cima dos sons do jardim e ele olhou. Viu sentado num banco de madeira um senhor de idade avançada, pele enrugada e barba por fazer, cabelo enfraquecido pela idade e roupa que parecia ser de quando ele era jovem. Ao seu lado uma botija de oxigénio portátil de onde saía um fino tubo transparente que o ajudava a respirar.

Mauro sentou-se ao seu lado e esperou que o velhote falasse. Passada uma hora, o velhote levantou-se e despediu-se:

– Até amanhã.

No final do dia seguinte, Mauro regressou ao jardim e de novo sentou-se ao lado do velhote. Durante uma hora ouviu o respirar pesado dele até ele se levantar e despedir-se. Ao terceiro dia começaram a falar de assunto nenhum. E assim de repente Mauro percebeu que tinha ali um amigo fruto da sua ideia com o anúncio. Por entre aqueles diálogos, Mauro um dia perguntou ao velhote:

– Isso dói?

– O quê, morrer? – Respondeu o velhote.

– Respirar por aí.

– Experimenta. – Passou o tubo transparente a Mauro. Este encostou-o ao nariz e inspirou longamente. – Que tal?

– É frio.

– A morte também.

– Como sabe? Quer dizer, ainda não morreu.

– Como te sentes agora, Mauro?

– Com frio, estranho…

– Exato, eu sou a morte. Vim-te buscar.

– … – Mauro ficou em silêncio.

– Deixa-te de tretas. Não tens família, não tens amigos, não tens namorada, não tens paixões, nada! A tua vida é um vazio total. Aquele anúncio foi um pedido de socorro em desespero. Ao fim de quatro dias só eu te posso ajudar.

– Mas eu não quero morrer.

– Então levanta-te e vai viver pela primeira vez! Não porque eu digo mas porque tens de querer. E eu vou saber se queres mesmo mudar e viver.

Mauro levantou-se. Estava inexpressivo, sem conseguir perceber o que tinha acontecido. Parou junto ao quiosque laranja e olhou para trás. Já não viu o velhote. Considerou estar a alucinar mas percebeu que aquilo era a realidade quando sentiu que tinha mesmo de mudar. Decidiu por isso ir a uma mercearia comprar produtos frescos para fazer ele o jantar, aprender a cozinhar e aprimorar-se para depois convidar alguém para uma refeição especial. Parecia ser uma boa ideia para começar a fazer coisas diferentes.

Ao sair da mercearia ouviu-se um forte estrondo que ecoou pelas ruas. Seguiu para casa e um pouco mais à frente viu o café do Sr. Rodolfo destruído por uma explosão.

Por entre os gritos de susto e de choque que se espalharam pela rua, percebeu que ele próprio estaria ali a comprar uma refeição feita igual à de todos os outros dias, se não tivesse alterado a sua rotina. Disse para si com um sorriso:

– A morte salvou-me!

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