Miranda, uma espécie de alter-ego criado, para uma viajante que nem sempre o soube ser.
Para a viajante que iniciou quinhentos mealheiros com objectivos, todos comprados no chinês e os acabou por abrir, antes de tempo, devido a circunstâncias maiores.
A viajante Miranda tem também, à semelhança de Liz Gilbert, que admira, caixas, livros e recortes de viagens por fazer, em honra da profissão que escolheu no inicio de carreira e que a fez vender tantos outros destinos como os que sonhou, a outros que voltaram felizes e a fizeram feliz também.
Miranda, nome em homenagem a Miranda do Corvo, ali perto de Coimbra, onde vive agora uma das amigas mais queridas e onde frondosas árvores se erguem, alheias, entre tempos e tenacidade.
A mala ainda está guardada no mesmo sítio, a correia já gasta de lugares por onde se passeava airosa, à espera de dias melhores que sabe que chegarão.
Nos tempos que estão por vir, quando se puder partir, permanecer e chegar, sei que Miranda voltará forte e destemida, sem necessidade de moedas e outras contradições à fortuna e prosperidade. Pegará, sem medos, na mala da correia gasta, porque lhe traz muitas bênçãos que preencherá no caderninho de aventuras.
Nesse caderno, contará como o seu país está cheio de mar, sol, história e terras férteis. Como o ar que se respira é tão revigorante como as suas gentes, que abraçar uma árvore é a terapia mais fantástica que existe e que acordar bem cedo e passear na praça, cheia de gente, lhe trará muitas histórias que um dia usará para contar. Da gulodice tirará misérias com os pratos e doces conventuais que só se comem por aqui.
Que à noite, a mala servirá de testemunha ao amor que a une ao homem que ama e que em cansaços bons se preparará um novo dia.
As ilhas e o continente aguardam para abraçar Miranda, que na sua janela sorri ao mundo e medita sobre a importância que é estar-se grata e viva, em meio de contradições, desafios e desassossegos. Prepara mentalmente livros que quer levar e ler nas suas aventuras, porque viagem sem memórias dos livros que se lê, não tem a mesma qualidade.
Nestes tempos que correm, Miranda sente-se adormecida. Está a resgatar forças para o que ainda está por vir. Dorme com a cabeça encostada na mala, agarra com tranquilidade o caderno nas mãos. Sabe que, mais dia menos dia, vou acordá-la e que juntas iremos percorrer caminhos que até se calhar já vimos mas que temos vontade de visitar outra vez.
Quanto a mim, não tenho nenhum mealheiro disponível. As lojas dos chineses ainda estão fechadas e as moedas estão a ser mais utilizadas do que esperaria e com maior frequência, mas sei que tudo muda, tudo passa e que a Miranda espera por mim.
Em breve, desfilaremos juntas e de sorriso estampado no rosto, reconhecendo raízes e marcando caminho. Que o facto de não o fazermos agora, simplesmente serve para reconhecermos quem de facto somos. E essa, é a maior viagem de todas.