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Nada me preparou para voltar a sentir

Como se controla esta ânsia pelo teu toque?

Preciso de expulsar-te dos meus lábios. De me deslembrar de como o teu nome se enrola na minha língua e se torna parte de todas as palavras que digo. Não quero mais a tentação das tuas mãos. Demito-me deste sorriso que teima em ser inconveniente quando penso em ti. Mas o mais difícil será deixar de sonhar-te. Foi um espanto que me apanhou debaixo da chuva, quando fechei os olhos e te quis com tanta força que nem conseguia respirar.

Nada me tinha preparado para voltar a sentir.

E agora, o que posso arrancar de mim para voltar à paz?

A música e a poesia iriam enterrar-me ainda mais em ti. Abandono-as. Procuro-as. Abandono-as. A tua voz contorna sempre os meus redutos. Pergunto-me se há truques que me levem de volta à dormência dos corações remendados, melancólicos, seguros, mas vem-me à cabeça que um dia me vais dizer alguma coisa banal com três reticências no fim e que isso vai mudar tudo.

Como: “Olha, sabes…”

Porque três reticências no fim são precipícios imensos que nos obrigam a saltar sem pára-quedas. Não sabemos se é perigo ou liberdade.

Serei morte ou infinito. Atiro-me: “Diz.”

Não sei se voo, tenho gestos toscos, carregados de dúvidas que nunca compreenderás. Tu olhas e olhas e nunca me vês. Eu quero tanto que me vejas, mesmo se eu não for capaz de voar, mesmo se eu responder com silêncio, mesmo se eu nunca admitir que também sinto algo indefinido. Quero que me vejas. Por mais que eu finja que não e procure entorpecedores.

Nada me preparou para te encontrar. Nem para o óbvio desencontro que sempre haveria.

Óbvio e inevitável. Esqueço fantasias, ocupo-me com desculpas e convicções: isto passa, isto passa. Como numa reza. Rejeito dogmas, tropeço em pecados, exorcizo-te de mim. Temos demasiado universo entre nós, repito. Isto vai passar, convenço-me. Já não sei quando estou a mentir. Já não sei qual é o lado da moeda que quero. Não consigo afastar a certeza de que, quando te estiver quase a esquecer, tu irás ver-me. E nada me terá preparado para que me encontrasses.

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Rosa Machado

Por ser curiosa e fascinada pelo que não compreendo, considero-me uma devoradora de livros e uma criadora compulsiva, seja de contos no papel ou de histórias mirabolantes no dia-a-dia. Adoro animais, fotografia, música e filmes – arte em geral. Perco a noção do tempo com conversas filosóficas sobre nada, longas caminhadas para parte nenhuma, conversas exageradas com os amigos, e séries com ronha no sofá.

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