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Contos

Geografia da tristeza

Contornou os olhares dos velhos à porta do café, deixou-se cair numa cadeira ao sol e preencheu o vazio da mulher que tinha à frente. Tirou a mochila e colocou-a no chão. Pediu uma garrafa de água. Os ombros doíam-lhe, na mochila guardava três cartas que nunca tinham sido enviadas. O arrependimento pesa sempre demasiado.

A mulher bebeu o copo de vinho de seguida. Os olhos idosos observavam-no em duplicado. Estudava feições. Ele era-lhe um nó na garganta no meio de uma música antiga. Havia um pensamento que a observava no limiar da memória, uma sensação qualquer da qual ela se tinha despido havia muito e que agora parecia envolvê-la de novo.

Ele bebeu quase metade da garrafa de água e sorriu para a mulher. Tirou um mapa do bolso e abriu-o na mesa, para ela ver.

“Repare aqui” a voz era suave.

Ela espreitou.

Com o dedo, ele atravessou em segundos toda aquela geografia de tristeza que demorava anos a ultrapassar. Era impossível ver e perceber todos aqueles pormenores topográficos que preenchiam o papel. Era impossível. E, no entanto, ela sentiu-os todos.

Tocou nas ilhas espalhadas no meio dos oceanos escuros de angústia. Não havia pontes nem catamarãs, construir ligações era um compromisso difícil, tinha de ser à base de barcos a remos e braçadas, tentar sobreviver quando o desespero gelado puxava para o fundo. Nem sequer se podia confiar nas estrelas, o céu era veludo negro. A lua também não se via, mestre titereiro de bastidores que mexia com as ondas, com as lágrimas, enfim, com a vida. Encontrar porto fora da tristeza pedia uma navegação árdua.

Reparou numa mancha de sangue fresco por cima das ilhas no mapa de papel. Ela admirou-se. Ele não:: sabia que tocar nos montes rochosos da insegurança podia magoar. Ela fitou o dedo cortado. Pareceu-lhe adequado. Afinal, escalar dúvidas e atravessar medos magoava, deixava cicatrizes nas mãos, nos joelhos, nas perspectivas.

Aprendeu com a ferida e não tocou nos desertos de desamparo. Recordava bem do quanto a dor podia queimar, levar a desejos irracionais que apareciam como bolhas: arrancar a pele para deixar de sentir totalmente, ou então para sentir outras mágoas mais fáceis de curar. Era preciso revestir os pés de força e o corpo de lembranças, avançar mesmo com o coração descompassado em desalento. Às vezes, nem assim.

Às vezes, nem preferindo dar uma volta maior para evitar desertos e atravessar cidades abandonadas. Porque as ruínas exigiam olhos bem abertos. Eram habitat de loucuras nocturnas, de fantasmas que espreitavam em ruas escuras e em túneis, sussurrando que eram becos, que não havia luz, que o melhor era encolher-se e ficar a viver na dormência, no desespero, que a saída era um abismo.

Nenhum caminho garantia nada, mas não é disso que é feita a esperança?

Ela tirou os olhos do mapa e respirou rápido. Tinha acabado de emergir, quase sufocava. Lugares de anos eram segundos debaixo de um dedo. Lembrou-se do corte e levou a ferida à boca.

Ele fechou o mapa, orgulhoso cartógrafo de passados. Pediu dois copos de vinho. Observou-a em silêncio. Ela suspirou.

“Não te esperava, Solidão.”

Olharam-se. A Solidão queria companhia, queria beber todo o dia enquanto recitava apenas as palavras que se pudessem queimar, queria acabar a noite a despir-se devagar de tudo o que nunca mais lhe servisse. A Solidão queria ser outra coisa que não um buraco no peito.

Lá fora, começou a chover.

Ele pegou na mochila e levantou-se. Tinha de seguir caminho, colocar aquelas três cartas no correio para curar mágoas e encontrar-se com outras inquietações pelo caminho. Beijou a Solidão na testa. Um dia, quando ela voltasse a bater-lhe à porta, já saberiam confiar um no outro.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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