AmbienteCrónicas

Para onde vão os nosso animais de estimação?

Olhar para o lado na cama e encontrar um lugar vazio dá para pessoas e para animais de estimação. Aquela sensação de conforto, a companhia, o ressonar alto, o roubar da almofada (sim) desapareceram.

Só quando perdemos os que verdadeiramente amamos é que percebemos o real significado da mítica frase de  Saint-Exupery:

Aqueles que passam por nós não vão sós, não nos deixam sós. Deixam um pouco de si, levam um pouco de nós.

Não ficamos os mesmos.

Não nos sentimos iguais.

E com os animais de estimação, em virtude da sua longevidade ser menor, a sensação só é potenciada. Dão-nos tanto e ficam tão pouco. Vivem depressa.

Tive a sorte de ter comigo a minha cadela arraçada de caniche quase 15 anos. Não a encontrámos, ela encontrou-nos já com um ano de idade. Com grande parte da vida dela até então vivida na rua. Achava-a tão feia (sempre embirrei com caniches) e tornou-se tão linda. A menina mais linda.

Cuidámos dela. Fizemos sentir-se segura, criar rotinas, baixar a guarda. Demos-lhe margem para o livre desenvolvimento da personalidade (e como desenvolveu). Tornar-se parte da família. Condicionar as nossas vidas e as nossas decisões. Estar presente em todos os momentos familiares. Aniversários, férias, Páscoas, Natais. No dia-a-dia. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença (há casamentos que não duram tanto). Até que a morte nos separou.

Nenhuma despedida pareceu suficiente.

Aquela que não sossegava, enquanto eu não chegasse a casa, mesmo que (por vezes) a altas horas da manhã, ou que me fazia companhia nos dias e noitadas em casa a estudar para os exames nacionais, para os exames da faculdade, para os exames da ordem. Aquela que intuía os nossos estados de espírito. E nos recebia à porta em festa e sprints de alegria. Que tinha ciúmes do meu portátil, quando estávamos as duas no sofá e punha o focinho em cima do teclado para lhe dar atenção. Deste onde escrevo neste momento. Que pedia para ir passear nos dias solarengos, mas não queria ir molhar as patas, quando chovia. Que me tirava tudo, fosse o sofá, a almofada, os cobertores, as pantufas em forma de animais, o sossego, o sono (caniches). Que ficava amuada, quando a contrariava (caniches).

Aquela que passou por vários problemas de saúde, ao longo da vida, sem nunca perder a pose. Um dia não teve capacidade física para lutar mais.

E as noites mal dormidas para cuidar dela no final de vida deram lugar a um tipo de cansaço que o sono não cura.

Depois disso, até as manias deixam saudades.

Para onde vão os nossos animais de estimação, quando partem deste Mundo? Se houver um paraíso para cães, a minha certamente estará num com um sofá à medida dela, um cobertor quentinho à volta do qual fazer “pão-de-ló” e pantufas em pêlo para “adoptar”. Ah! E com muito chocolate à disposição. Agora já pode.

Ficam as memórias. Bem como uma sensação de vazio que não apetece voltar a preencher.

E um aperto no peito que se reflecte no olhar, durante o tempo que for necessário. Ou até sermos encontrados pelos que precisarem de nós.

Fazer o luto dá para pessoas e para animais de estimação.

A autora escreve segundo a antiga ortografia

E em memória da sua queenB

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Angelina Lima

Posso dizer sem grandes incongruências e com várias reminiscências que no fundo sou uma não alinhada.

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