Deuses hereges

Quando acordou, reparou que o bebé não chorava e que o mundo era silêncio.

Levantou-se do cadeirão e sentiu novamente dores. Todo o corpo dela tremia de um frio tão visceral que o sentia no sangue e no tutano. Um frio de morte. Porque ela estava morta de medo do futuro, morta de medo da solidão. Morta de medo pelo que tinha feito.

De pé, encostada à parede, observava o corpo do marido descaído na poltrona. A camisa cheia de sangue tapava a maior parte do peito que já não tinha pele. Muda, punha toda a força dos seus gritos no olhar que pousava nele. Era uma prece inútil para que acordasse, uma súplica impossível para voltar a ouvir-lhe a respiração. Por favor, por favor, por favor.

Pensou no momento em que tudo mudara. Ajoelhada no jardim, suada, com as unhas cheias de terra e o coração em pedaços, contara-lhe tudo. «Farias qualquer coisa por nós?», perguntara. E ele fizera.

Tinham cometido o pior dos pecados: tinham sido heróis, loucos, moiras profanas que tecem o destino. Deuses hereges que brincam aos multiversos. Que não seja este o preço a pagar, desejou. Mas o pânico gelado controlava-lhe o âmago porque sabia a verdade. O que esperara? Queimara todas as pontes que a uniam ao deus a quem rezava, um pai ferido que rasgava todos os pedidos que lhe chegavam. Ela ofendera-o e ele tornara-se mouco. Abandonara-a.

Começou a ouvir o ranger vagaroso e agudo do berço a balouçar no chão de madeira. Era um som postiço num mundo surdo, porque estava errado, porque denunciava a sua culpa, porque era um dedo acusatório que lhe lembrava que tinham trespassado existências proibidas. E agora ia enfrentá-lo sozinha. Queria tapar os ouvidos e chorar, fingir que não ouvia, que não o via mexer-se para a direita e para a esquerda, para a direita e para a esquerda.

E, no entanto, era o seu bebé. Um pedaço externo das suas almas, o que lhe restava de eles os dois. Tinham sonhado tantas vezes ouvi-lo de novo, tantas, que sacrificaram tudo. Nem se apercebeu dos passos que a levaram até ele. Afastou a manta de lã que o tapava, tocou ao de leve nos lábios pequeninos e no cabelinho suave.

«Olá, bebé» sussurrou.

Ele não chorava, não fazia nenhum barulho. Ela notou que a pele não lhe servia bem e puxou-a devagar, para encaixar melhor nos dedinhos. Alisou as pregas. Sentia-se mais calma, capaz de metamorfosear sacrilégios em milagres. Com o seu polegar molhado de saliva, limpou a terra à volta do nariz perfeito do seu filho. Pegou nele devagar, embalando-o numa dança até o colocar no peito inerte e pelado do marido. A pele voltava ao seu corpo e era como se o bebé pudesse substituir a respiração do pai.

«Vês o que conseguimos fazer?» perguntou ao frio e à solidão.

O bebé observava-a com atenção, com aquele olho que ela tantas vezes vira no espelho e que agora era dele. Um para ela, um para ele. Aninhou-se na poltrona ao pé do corpo pálido do marido, quase exangue, e colocou a cabeça ao pé do filho, em cima da camisa cheia de sangue. O bebé continuava com o cheiro agridoce da morte, mas ela sabia que iria passar. Sim, porque ele respirava, estava morno, começava a ficar rosado. A transfusão tinha funcionado. Tudo tinha funcionado.

Já não temia a solidão nem o futuro nem sequer a morte.

Fechou o olho, procurando paz no silêncio que o amor da sua vida agora guardava no peito. Chegou para si o bebé que eles tinham feito, o bebé que eles tinham perdido, o bebé que eles tinham trazido de volta à vida.

Ajoelhada no jardim, desenterrara o bebé embrulhado numa manta e pedira um sacrifício. Dissera ao marido: «Ele foi feito por nós, com partes nossas. Nada mudou. É assim que vamos trazê-lo de volta» assegurara. «Farias qualquer coisa por nós?», perguntara-lhe. E ele fizera.

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