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CinemaCultura

Desabafo de um Fantasma Apaixonado

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Prólogo

A magia do Cinema Clássico encontra respaldo em alguns – poucos mas bons ou muitos, se nos predemos pela vida deleitando-nos a aprender sobre épocas e costumes através da sétima arte – filmes que nos marcaram e cujo toque com que moldaram as nossas vidas pode ser imputado a uma infinidade de circunstâncias.

A idade, a educação, os professores, amores, solidão, ausências, família, amigos e, juntando a todas essas variáveis externas que nos acolheram quando chegamos ao mundo, o património genético cunhando o que de nós se cruza com tudo o resto, absorvem cada experiência, e em particular cada filme, e destes cada clássico, para com ele aprenderem a formar mais um pedacinho de nós, espectadores que avidamente teimamos em apanhar as migalhas de um passado tão preconceituoso quanto glorioso, no que aos filmes diz respeito, sobretudo quando colocado ao lado da pobreza árida que forma o cinema actual, para a qual não se vislumbra perspectiva de inversão, assistindo nós a uma morte lenta das salas, com fechos e filmes medíocres, enquanto as plataformas de streaming propalam pseudo-intelectualidades cuja qualidade se confunde com o marketing e é quase toda ela – a qualidade – vertida para as séries (forma de contar histórias de que não gosto mas que se nota a léguas possuir uma genialidade que fugiu do Cinema).

O Fantasma

O Fantasma Apaixonado caiu na minha vida (como tantas obras de idade de ouro), numa tarde de semana da tv por cabo. Foi este filme, juntamente com Eva, que me levou anos mais tarde a ir à Cinemateca assistir a Carta a Três Mulheres. Em comum a todos eles: o realizador, Joseph Mankiewick.

Rex Harrison é um fantasma que assombra um chalet à beira-mar, na costa britânica do início do séc. XX, para onde vai viver Gene Tierney, uma viúva que mantém a fidelidade ao marido. O fantasma apaixona-se mas é orgulhoso, e ela recebe o seu amor com uma ingenuidade respeitosa. Com o desenrolar da relação, as dificuldades financeiras que a assolam encontram solução nas memórias dele, fantasma que nos tempos de vida na terra havia sido um aventureiro, e que lhe dita tais façanhas para ela escrever, e com a publicação do livro eventualmente ultrapassar as privações.

Parece chato e até banal. Não é. Porque a qualidade de um prato não depende só dos ingredientes, mas das mãos de quem cozinha, do tempero que tudo aviva e do amor que reinventa sabores.

O Fantasma Apaixonado assenta em dois grandes intérpretes e num argumentista exímio. É um daqueles tijolos que, não fazendo parte de uma parede mestra do edifício cinematográfico que alberga a minha vida, se não estivesse presente no exacto lugar que ocupa numa qualquer parede de um anexo refundido das traseiras, faria uma falta imensa a este palácio de maravilhas, tal o frio que por lá entraria, como a presença de Harrison provoca a Tierney sempre que dela se aproxima, esse Fantasma Apaixonado.

Epílogo

Talvez tal Fantasma, como o Cinema, esteja a desaparecer, sendo hoje mais real esse desaparecimento do que todo o amor a esta arte que alguma vez existiu. No final do filme, há algo que desaparece e não é o amor. Também o amor ao cinema não desaparecerá, mesmo que não restem filmes para me levar às salas e somente as reposições se mostrem capazes de arrancar de casa o meu entusiasmo. Porque uma ida ao Cinema não é só (embora também seja) entretenimento, pipocas e filmes SPT (soco, porrada e tiros) mas também confrontarmo-nos com os nossos medos e demónios, divertirmo-nos entre comédias que vão lançando verdades, ou levarmos murros no estômago por vermos num ecrã realidades gigantes que não julgávamos possíveis. Vai ficando o sopro, frio mas acolhedor, desse Fantasma que, tal como o de 1947, nos (me) mostrou outra forma de amar.

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O Fantasma Apaixonado

8

Uma história de amor tão impossível quanto terrena.

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António V. Dias
Tendo feito a formação em Matemática - primeiro - e em Finanças - depois - mais por receio de enveredar por uma carreira incerta do que por atender a uma vontade ou vocação, foi no Cinema, na Literatura e na Escrita que fui construindo a casa onde me sinto bem. A família, os amigos, o desporto, o ar livre, o mar, a serra... fazem também parte deste lar. Ter diversos motivos de interesse explica em parte por que dificilmente me especializarei alguma vez em algo... mas teremos todos que ser especialistas?

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