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a arte de enganar(se)

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Quis este texto que fosse baseado cientificamente em estudos e afins comprovativos, para que o tema abordado se tornasse mais acessível a todos. Porém, e coisa caricata, pesquisando sobre hipócritas e mentirosos, devolve à autora a pesquisa coisa pouca ou nenhuma. E, a que existe, resigna-se a outros países. Sobre hipocrisia versus mentira, o Brasil tem muito a dizer. Já, em Portugal, talvez tenhamos muito a aprender.

Uma mentira tamanho pequeno, para que a hipocrisia aqui fosse elevada ao grau tecnológico, sob pena de enganar a ciência, ou algo que a comprove matematicamente.

Nesses termos, a construção deste texto tem muito pouco de científico, ficando o óbvio por aquilo que são os comportamentos das sociedades e aquilo a que permitem como atentado à sua moral e costumes.

Com o objectivo de entender porque desprezamos pessoas hipócritas e benevolentes somos perante as mentirosas?

Tudo porque, se tende a gostar mais de uns do que de outros!

Quando os mentirosos mentem, o lado esquerdo do sorriso é habitualmente mais pronunciado do que o direito” “nenhum impostor consegue fingir muito tempo” “quando as palavras e a linguagem corporal de alguém entram em conflito, as mulheres ignoram aquilo que é dito por palavras.

Linguagem Corporal, Allan e Barbara Pease

Origem e Etimologia

A palavra HIPOCRISIA vem do grego antigo ὑπόκρισις (hupókrisis), que significa “encenar”, “interpretar”. O adjectivo hipócrita vem do grego ὑποκριτής (hupokritḗs), que significa “actor”.

MENTIRA – do Latim mentior , “faltar à palavra dada, fingir, imitar, dizer falsamente”. Em Latim ainda, menda era “defeito, falha, descuido no escrever”, do Indo-Europeu mend-, “defeito físico, falha, aleijão”. Uma origem muito adequada, pois uma mentira é um facto aleijado, sem as pernas da verdade para se sustentar.

As Aventuras de Pinóquio

No link Origem da Palavra, camuflado entre a imagem acima, há várias possibilidades para substituir a palavra mentira. Como se fosse permitido a esta falha comportamental se tornar amoral, mudando o substantivo por outro, para ser aceitável nas acções que a fazem ser toleradas pelos outros que as ouvem.

Pessoalmente, gostei da seguinte:

INVERDADE – há quem pense que chamar assim uma mentira a suaviza. Esta palavra vem de verdade, que vem do Latim verus, “real, autêntico, sincero”. Com o prefixo negativo in-, passa a significar “o que não é verdade”. Ora, salvo melhor juízo, o que não é a verdade é mentira.

Considerando que hipócrita e mentiroso podem ser personagens diferentes, dir-se-á que ambos são INVERDADE. Embora, o estatuto do primeiro seja menos tolerável que o segundo, a sua base é a mesma. Pelo que qualquer um deles deveria ser rejeitado. Então que acontece para que haja distinção?

“Todos vêem o que você parece ser

mas poucos sabem quem você realmente é”

Niccolò Maquiavel (1469-1527)

Qualquer pessoa, quer governe ou seja governada, faz uso do engano como uma ferramenta diária. Porque todos enganam e todos são enganados. Porque cada um tem inerente um conjunto de valores, crenças, expectativas, desejos, sonhos… que podem ser realizados ou não. Porque na interacção com os outros, tem-se isso em conta, já que se lidam com expectativas de ambas as partes, considerando que aquelas que não são cumpridas ou realizadas se intitulam de enganosas. Um livre-arbítrio de cada um, uma escolha individual, mas uma faca de dois gumes.

Talvez seja esta a razão principal porque se participa neste jogo do engano dos outros, naturalmente aceite, porque também se é enganador, mesmo que a retórica sobre a hipocrisia ou mentira diga o contrário. Eu não sou! Eu não faço! Eu não digo! (?)

“A impostura é a alma, por assim dizer, da vida social, e a arte sem a qual nenhuma arte ou faculdade, consideradas segundo os efeitos sobre o espírito humano, são perfeitas. […] A impostura tem poder e logra efeito até mesmo sem a verdade, mas a verdade nada pode sem ela. […] A própria natureza é impostora para com o homem e não lhe torna a vida deleitosa senão por meio da imaginação e do engano.”

– Giacomo Leopardi, Poesia e Prosa. XXIX, 482-483

Reporto aqui para este artigo, algumas teses de Mestrado, dissertações relevantes para compreensão desta temática e que, embora estejam no Português do Brasil, demonstram o quão a natureza humana consegue ser benevolente com a “falha”, o “erro”, o “mau” ou o “vilão”. Um conceito Nietzschiano, que continua a ser tema de debates nestes assuntos filosófico-comportamentais do Indivíduo em sociedade.

O link para a tese de Mestrado de Gustavo Bezerra do Nascimento Costa, fica assim disponível para os interessados.

A mentira tem perna curta ou apanha-se mais depressa um mentiroso que um coxo, são alguns dos provérbios populares que a referem no seu conteúdo. Fábulas como O Pedro e o Lobo, as Aventuras de Pinóquio; personagens da imaginação ou, as Aventuras do Barão de Münchhausen, personagem real, do séc. XVIII, descrevem na íntegra o conceito de mentira e hipocrisia que todos conhecem, compreendem, rejeitam como seu, mas aceitam conscientes porque mentira nunca pagou imposto. O dia 1 de Abril, alusivo ao Dia das Mentiras ou dos Bobos, é um dia de alegria para muitas pessoas em muitos países. Dia em que é permitido “contar petas”, dia da brincadeira de enganar os bobos, naturalmente aceite e sem a presença dum Grilo Falante que nos apela à consciência do que é ético ou íntegro.

Neste cenário, o poder de difusão da mentira sustenta-se na banalização da malignidade que atravessa a vida dos homens e que é aceite sem julgamento ou hierarquia de valor.

“(…) Constitui um dos principais atributos das relações sociais, instituindo-se como valor eticamente perverso; manifesta-se como ideologia ou é expressa cinicamente como “mentira manifesta”; a lei é a da hipocrisia normatizada entre os sujeitos; revela-se sob as subtilezas enganosas e opressivas da burocracia, em certas justificativas cínicas de segredo ou de sigilo; destrói as manifestações do desejar, sentir, pensar e agir e esvazia o respeito à alteridade dos indivíduos; apresenta-se potencializada pela cumplicidade, mesmo que inconsciente, dos indivíduos, que a reproduzem em vínculos de farsa.” *

Acredito que todos já tenham convivido, ou continuem a conviver, com sujeitos assim. Na família, no trabalho, no quotidiano e entre rotinas… que se dizem mais do que são. Intensificam as suas acções, posses ou qualidades para se fazerem ver e ouvir. E, claro, porque gostamos mais ou muito, tudo se permite e nada se diz, aceitando levianamente que aquela pequena mentira é apenas omissão de coisa e mal não faz.

* As Aventuras do Barão de Münchhausen

A fraude disseminou-se como norma social e a dissimulação, o enganar, o ser-impostor articulam a aceitação entre os farsantes, que passam a viver na lógica da adulação astuciosa, conduzente à conquista de benefícios oportunistas sob os quais é difícil de alguém escapar: todos se tornam condescendentes com tudo, indiferenciadamente, vivendo sob a hipocrisia. Não existe preocupação ou exigência de busca de discriminação entre mentira e verdade pois o ser verdadeiro vem saindo do cenário da vida entre os homens.” *

E, isto é apenas um início duma questão que, aparentemente pode ser banalizada por se considerar inofensiva. Mas, cujos contornos podem chegar ao extremo, e se incutir num grupo de pessoas a falsa verdade como real, com resultados nefastos para a própria espécie.

Será que desprezamos mesmo pessoas hipócritas e aceitamos as que mentem com unhas e dentes?

Ou, apenas, gostamos mais de umas pessoas que de outras e, se confundam os termos como se fossem distintos na sua verdade?

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Carmen Ezequiel
Carmen de Jesus Martins Ezequiel nasce a 8 de Abril, em Queijas, Concelho de Oeiras. Em Vila Boim, bela terra do Alto Alentejo, Concelho de Elvas, cresce e, nas suas planícies se norteia para fazer da poesia o seu modo de viver a vida. Vive actualmente na Aldeia de Paio Pires, Concelho do Seixal, local ao qual se afeiçoou pelas paisagens que circundam a sua baía. Escritora, poetisa, cronista, humanista e activista cultural, desde 2000 que participa em colectâneas e antologias de prosa e poesia. Com alguns livros publicados, nas formas literárias de prosa, poesia, conto infantil e ensaio. A autora não utiliza o Novo Acordo Ortográfico.

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