“mas não te aconselho a tristeza, Al Berto, nem a melancolia, pensa bem… quantos fogos estarão ao alcance do tacto?
acende-os sem demora, continua invisível.”
Al Berto
Al Berto quis expulsar o medo pela poesia. Corpo e alma pareciam tomados de um horror metafísico, materializado em palavras impossíveis de ressignificar. Começou por amar a pintura, mas foi nas letras que procurou a catarse. Editor e poeta, nasceu em Coimbra, em 1948, exilou-se em Bruxelas no final dos anos 60, onde estudou pintura, viveu entre Sines e Lisboa.
aqui está a imobilidade aquática do meu país, o oceânico abismo com cheiro a cidades por sonhar. invade-me a vontade de permanecer aqui, para sempre, à janela, ou partir com as marés e jamais voltar…
O Medo, edição da Assírio & Alvim, reúne os frutos de pouco mais de uma década de expressão poética irreverente, legado de quem, apesar de nascido burguês, se rebelou contra as linhas rígidas do modelo social e buscou lenitivo na utopia de uma vida livre.
Na obra de Al Berto, a sede de encontrar-se e de ao mesmo tempo sair de si traduz-se numa dissecação obsessiva do corpo e dos seus fluídos: cuspo, esperma, urina, lágrimas e sangue. É o corpo o albergue físico da existência humana, nele vivia o medo que Al Berto se esforçou por exorcizar.
estas planícies asfaltadas pelo tédio estes prédios de urina
estas paredes vomitadas
onde as diáfanas aves da solidão embatem e definham
deixam cair dos bicos fios de sangue e de cuspo que te evocam
Contudo, nem só de corpo vive a poesia de Al Berto, um flâneur noctívago, amante do mar e das ruas silenciosas, mas também da sua subversão pela agitação boémia. Um homem dividido entre duas faces, solar e lunar, entre a inadaptação e o fascínio por um sentir violento.
a noite jorra silêncio de estrelas e de mar, cobre de cintilações a terra lavrada. vergam-se os pinheiros à luz do luar, a resina enegrece os dedos. ouve-se o rebentar das ondas. adormeço.
Al Berto consolidou a sua voz poética – repleta de metáforas e de jogos lexicais -, fora de tempo, o que pode levar a supor que, por caprichos do destino, nasceu na época errada. Numa época incapaz de integrar a obra e o homem, homossexual assumido, apontado como marginal e promíscuo pela comunidade que o viu crescer, uma comunidade paradoxalmente conservadora e antifascista. No entanto, talvez tenha sido esse pretenso erro de timing que o trouxe à ribalta, graças à irreverência na escrita e na vida.
Al Berto transformou-se, transformou e continuará a transformar pela obra que imortalizou, de leitura obrigatória para quem ama a poesia. “O Medo” é uma aposta para ler sem medo.