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Contos

Depois do Antropoceno

O Prisioneiro, isolado na cela, está impedido de dormir. O altifalante grita: ‘vivam os oligarcas, vivam os demiurgos, vivam os mineiros de cripto-divisas!’. O estroboscópio, como um picador de gelo, espeta imagens no córtex pré-frontal: aves-do-paraíso / uma carga policial / aves-do-paraíso / uma carga policial. O Prisioneiro vigia a aranha que o vigia desde o canto onde tece a teia fazem dezassete dias e dezassete noites. Arranha o estuque e acorda uma escolopendra. Esconde-se num buraco cavado no interior do cotovelo e, à memória, vem um dia passado em família. A cela tem um metro por dois. Sobram alguns centímetros desde os pés do catre à porta de aço; uma largura de joelhos quando, sentado na borda do colchão tísico, descansa a cabeça contra a parede. Poço, chamam à prisão, os prisioneiros.

O Guarda abre a escotilha e o Prisioneiro vislumbra uma nesga de mar verde-musgo e um cachalote que por ali desliza a eclipsar o sol com o dorso. O Prisioneiro submete os pulsos. ‘Haverá organismo mais resiliente do que o teu?’ pergunta o Guarda ao algemá-lo. Usa risco ao lado. Tem cara de figurante de cinema. Sabemos que é um androide pela forma como dobra as esquinas.

O Prisioneiro dá um passo para o corredor. O Guarda agarra-o pelo tornozelo e vira-o de pernas para o ar. ‘A revolução é inútil e tu uma vítima da luta que travas,’ diz, e induz uma descarga eléctrica pelo corpo desterrado do Prisioneiro. O Guarda transporta-o suspenso pelo tornozelo, ao longo do corredor, e larga-o sobre a cabeça diante do Contínuo Cego que, à boca das escadas, percute o bastão de Hoover. Manietado pela clavícula, o Prisioneiro não tem outro remédio senão ajoelhar-se. O Contínuo Cego apalpa-lhe as feições e determina: ‘Lá para cima’. ‘Homens de boa-fé obedecem cegamente ao chefe,’ responde o Guarda e arrasta o Prisioneiro escadaria acima. O Prisioneiro escorrega nos degraus húmidos. O Contínuo Cego espirra, queixando-se de alergia ao mofo.

Há na parede da sala de interrogatório, uma fila de barómetros, sismógrafos, relógios. Entra o Inspector Superior, homem de meia-idade, envergando uma gabardine púrpura. Traz na mão um caderno A4 e uma embalagem de canetas de feltro que pousa sobre a bancada inox que ocupa o centro da sala. ‘Fui informado que gosta de pintar,’ diz. O Prisioneiro abre o caderno e tacteia o papel com a ponta dos dedos. Desempacota as canetas, espalha-as sobre a bancada, selecciona uma cor e escreve para ostentar, com o bloco aberto defronte do peito, a seguinte frase: ‘Depois da catástrofe, eu renasço.’ O Inspector Superior dá dois murros na porta. Entra o Capanga trazendo consigo um bastão extensível que – acto contínuo – utiliza para golpear o rosto do Prisioneiro. O Prisioneiro cai sobre os joelhos. Debruça-se sobre o caderno que, involuntariamente, deixou cair. Escreve: ‘A minha força é infinita.’ O Inspector Superior boceja. Com o dedo indicador, desenha uma espiral no ar. O Capanga corresponde com uma bastonada na nuca do Prisioneiro. ‘Calma,’ recomenda o Inspector Superior e o Capanga encosta-se à parede.

O Prisioneiro jaz no chão, a lutar contra a asfixia. O Inspector Superior despe a gabardine. Arrasta uma cadeira para junto do Prisioneiro e senta-se. ‘Tenho tido alguma dificuldade em entender o que é, exactamente, aquilo que vocês fazem. Deparo-me com resultados, reacções – até louvores -, mas não consigo estabelecer padrões, nem reunir provas, nem tão pouco apanhar em flagrante quem quer que seja.’ Faz força nos calcanhares, levanta as pernas dianteiras da cadeira e enviesa-se de modo que, quando volta a assentar o peso morto, o pé da cadeira esmaga a mão do Prisioneiro. O grito é longo. A mão, um bolbo disforme. A revolução vive, persiste, resiste, no espírito, na convicção política, num sistema inabalável de valores. O Prisioneiro é um ser de luz, para lá do ponto sem retorno, na terra para além dos limites de extracção, fora do alcance de captura, onde existem palavras e significados livres da gigantesca meta-estrutura.

É puxado pelos cabelos. Uma manápula imobiliza-o pelo queixo, outra força-lhe um alicate pela boca, que lhe lasca os incisivos, rasgando numa limalha um fio de lábio, até apanhar um canino arrancado da mandíbula como  no rachar de um quebra-nozes. Leva um pontapé. A sola da botifarra cheira a terra. Escuta os órgãos vitais – o corpo, companheiro de inúmeras aventuras. Ergue o punho, cospe sangue, grita: ‘Contra a obsessão pelo infinito, contra o medo de ficar aquém. Abaixo a ansiedade, abaixo a injustiça, abaixo a estreiteza de horizontes.’

É uma técnica que se treina: ripostar para resistir à tortura. Longas as noites em que ensaiou com Sofia, sentados lado a lado em bancos de jardim; os livros proibidos, escondidos no carrinho de bebé (dos meses em que visitaria o pai na cadeia não lhe ficaria, conscientemente, marca. Mas durante muito tempo, nos seus desenhos de criança pequena, as janelas das casas tinham sempre grades).

Ele, a brincar, dizia que ela tinha métodos do 1984. Sofia respondia que a sua distopia era baseada na realidade e não na neurose de artistas que, feitas bem as contas, não eram assim tão importantes. Se, ao menos, ele falasse no Ensaio sobre a Cegueira ou no Philip K. Dick. ‘Se um dia fores apanhado,’ respondia Sofia, preocupada com o que isso poderia significar para o amor dos dois, ‘não quero que sucumbas e me delates.’

O Enfermeiro descobre o Prisioneiro inanimado sobre uma poça de sangue. Agacha-se junto ao corpo tratado à moda antiga, a avaliar pelos instrumentos de corte, aperto e impacto que descansam na bancada inox. Tamborila o escalpe do Prisioneiro em busca de hematomas. Vê estremecer uma pálpebra. Ouve balbuciar. Pressiona um azulejo, abrindo o que é, afinal, uma gaveta contendo material de primeiros-socorros. Faz o possível por sarar o corpo dilacerado, o possível para que, ao menos, saia dali pelos próprios pés. Reza em solilóquio: ‘Deus é poderoso. Há-que trabalhar duro, manter o foco, não reclamar, não desistir, não capitular. Ser grande, ser grato, ser sábio, ser humilde.’ Soergue o Prisioneiro e dá-lhe de beber. Ajuda-o a pôr-se de pé e a subir o último lanço de escada.

Crianças, sentadas no parapeito, pescam à linha. Relâmpagos ameaçam uma tempestade. O Prisioneiro, agrilhoado, é puxado pelas axilas e prostrado diante do Inspector Superior. ‘Meu filho, o mundo está bem como está, só precisa ser limpo.’ O Enfermeiro corta o uniforme do Prisioneiro com um bisturi, revelando um torso de acrílico dentro do qual bate um coração artificial. Entrega o bisturi ao Inspector Superior. ´Tenho menos esperança do que tu na humanidade. Porquê essa ideologia baseada na justiça? Essa obsessão pela preservação da espécie? Nenhum outro animal tem essa esperança. Até as plantas se suicidam.’ O Inspector Superior secciona o tórax translúcido do Prisioneiro e arranca o coração biónico. ‘Extraordinário, este mundo em que existimos.’

O Prisioneiro cospe na insígnia do Inspector Superior. ‘Vemo-nos depois do Antropoceno.’ O Inspector Superior reage com uma hemorragia nasal à prolongada exposição à atmosfera. Escorraça os miúdos do parapeito e estes mergulham. Um bando de gaivotas voa a um palmo do seu nariz hemorrágico.

O Prisioneiro é jogado do terraço. As grilhetas afundam-no. A consciência, limpa, flutua.

Lisboa, cidade submersa. À superfície, despontam uma grua, duas torres, uma rosácea. Um cachalote que por ali desliza a eclipsar o sol com o dorso.

Renato Chagas

Nasci em Lisboa. Estudei cinema, actividade em que iniciei carreira profissional. Em 2004, parti para Moçambique e por lá fiquei, tendo integrado de corpo e alma um período áureo de produção cinematográfica na África Austral. Num volte-face, ditariam a curiosidade, o espírito aventureiro, e as regiões por onde me movia, que agarrasse a oportunidade de trabalhar na indústria naval, para a qual implementei e geri entrepostos logísticos em Moçambique, Angola, Tanzânia, África do Sul, Senegal e Quénia. Recentemente regressado a Portugal, assentei em Montemor-o-Novo, Alentejo, onde me dedico à escrita de ficção.

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