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Alice do outro lado do Facebook

As redes sociais e o problema da adição

Na conhecida história de Lewis Carroll, Alice, uma menina esperta e curiosa, é atraída para um gigantesco buraco pelo coelho, que corre, apressado, para lado nenhum. A partir do momento em que cai no buraco, Alice é puxada para um mundo paralelo – um mundo onde a lógica e o bom senso não têm lugar.

We’re all mad here, diz-lhe o chapeleiro louco, uma frase que devia aparecer, quando nos registramos numa rede social, logo abaixo dos termos e condições. Porque, na verdade, Instagram, Facebook, Clubhouse (todas as outras redes sociais que nascem como cogumelos numa rede global já saturada) são terreno fértil para nos perdermos num lugar muito mais escuro que maravilhoso.

Mulheres, jovens, sem emprego: o perfil do elo mais fraco

Em todo o mundo, existem 3.8 mil milhões de utilizadores de redes sociais. Isto significa que cerca de 49% da população mundial está ligada através destas redes de conexão e interação digital. Das mais mainstream (Facebook, Instagram, Youtube, WhatsApp) às de nicho (LinkedIn, Snapchat, Pinterest), as redes sociais têm vindo a aumentar em número de utilizadores e em tempo médio de utilização.

O surgimento famoso FOMO (Fear Of Missing Out), uma patologia psicológica causada pelo medo a ficar fora do mundo tecnológico ou a não se desenvolver ao mesmo ritmo que a tecnologia, demonstra o impacto que o mundo digital pode ter nas nossas vidas. O nível de stress a que estamos expostos é muito maior: há demasiada informação, demasiadas interrupções e distrações.

Há quem reporte casos de stress relacionados com a pressão sentida para aumentar o número de amigos nas redes, quem se sinta pressionado a responder a emails e mensagens de forma imediata, ou quem se tenha viciado em ver os feeds perfeitos das celebridades.

Segundo um estudo feito em 2015, as redes sociais têm um impacto manifestamente mais negativo nas mulheres. Durante as entrevistas, estas registaram, comparativamente aos homens, maiores níveis de stress causados pelo uso de redes sociais. Para além do género, os níveis de ensino e a situação profissional são factores de risco: pessoas mais jovens e em situação de desemprego reportaram maiores níveis de ansiedade.

As redes sociais, a dopamina e as campanhas anti-drogas dos anos 90

Não consumo drogas e bebo álcool ocasionalmente – mas sei o que é ser social media addicted. Antes do verão, comecei a reparar em alguns dos meus próprios comportamentos e a ficar alarmada. Brincava com os meus filhos de telemóvel na mão, espreitava o Instagram enquanto estava parada num sinal… Não precisei de muito tempo para perceber que as redes sociais estavam a ocupar um lugar na minha vida que eu não queria que tivessem.

Abhijit Naskar, neurocientista, explica esta adição. As redes sociais exploram aquela que é, historicamente, o mais antigo vício do ser humano: a aprovação. Alimentada pela dopamina (um neurotransmissor que nos dá a sensação de prazer e motivação), a adição às redes sociais dão-nos a falsa sensação de pertença a uma comunidade que, na realidade, não existe. 

A imprevisibilidade dos algoritmos torna tudo ainda mais viciante. A imprevisibilidade da aceitação daquilo que partilhamos (será que vou ter muitos likes nesta fotografia?) ativa os mesmos mecanismos cerebrais que uma slot machine.

No limite, somos responsáveis pelos nossos comportamentos. Mas, como em qualquer adição, é urgente pensarmos em respostas para este problema. Nunca estivemos tão alerta para a importância da saúde mental. A pandemia veio dar ainda mais relevância a este tema, pondo entidades públicas e privadas a discutir a importância de olhar para dentro de nós mesmos.

Na viragem do século, Portugal foi caso de estudo europeu no tema da toxicodependência. Criámos painéis de estudo, apostamos nas campanhas e políticas de prevenção. Agora, está na hora de dar a mesma relevância a esta adição, ou corremos o risco de parecer os jardineiros da Rainha de Copas, pintando de cor de rosa um tema que, na verdade, é negro. 

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico

Lídia Dias

Mãe de dois rapazes. Leitora de ficção, não ficção e livros de receitas. Escrevinhadora de conteúdo e outras coisas.

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