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CENSOS 2021 – Gente da minha terra

Em primeiro lugar vamos dissecar, de uma vez por todas, que os Censos2021 não fazem nenhum cruzamento de dados com as temidas Finanças, nem com a caridosa Segurança Social, também não cruzam dados com o ansiado boletim de votos da freguesia nem, tão pouco, com o honrado Registo Civil ou Criminal.

Como nos diz no Manual do Recenseador do Instituto Nacional de Estatística, “os Recenseamentos da População e da Habitação – CENSOS – são as maiores operações estatísticas realizadas em qualquer país do Mundo”. Destinam-se, portanto, a obter informação sobre a população e o parque habitacional.

O objectivo dos Censos não é esmiuçar, por mais incrível que pareça, se há alguma dívida às finanças, ou se existe algum divórcio fictício, ou quanto pagam de IMI ou quanto recebem de reforma. Convenhamos que se fosse este o objectivo, as próprias entidades e repartições tratariam do assunto…

Posto isto e sucintamente, os CENSOS , a operação em si, moldam-se a isto.

Martelo e fim de história.

Este ano, como Recenseadora, tive vivências caricatas e um golpe para a realidade com a tamanha falta de informação existente em volta do que é e para que serve os CENSOS. Claro que se deve ao facto desta operação dar-se de 10 em 10 anos e, naturalmente, a memória apenas retém o essencial do dia-a-dia e não, claro está, a coisas que o país se propõe a fazer de tempos a tempos.

No entanto, ainda houve comentários de lembranças vagas deste procedimento organizado pelo INE e ainda encontrei algumas pessoas que tinham uma pálida ideia para que servia.

Assim, durante o trabalho em campo, dava-me por contente quando as pessoas tinham uma mínima noção do que eu andava a fazer. A esperança, contudo, esvaía-se quando informava que este ano o inquérito seria por Internet. Após o Carmo e a Trindade caírem e colocarem-me entraves relativamente à concretização nas respostas, após explicações e elucidação sobre a razão pela qual ser online e não no rudimentar e estimado papel, depois de deixar claro que o papel do Recenseador não era somente entregar a assustadora carta com o código associado, mas também ajudar a população no que fosse necessário e, assim, colocando-me à disposição deles, as coisas encaminhavam-se novamente.

Entretanto, surge a notícia da coima que poderia chegar aos 50 mil euros pela recusa da resposta ou pelas informações errados e/ ou insuficientes de acordo com a Lei 22/2008 de 13 de maio (Lei do Sistema Estatístico Nacional) e o Decreto-Lei nº 54/2019 de 18 de abril.

Neste ponto, confesso, deixei este fio condutor perpetuar e marinar até refinar. Eu, como os outros recenseadores, acredito, deixamos que o universo nos desse uma mão e que esta notícia fizesse com que a população mudasse rapidamente de ideias a quem pensou, eventualmente, em não responder ou colocar obstáculos com desculpas de mau pagador.

Adversidades que ia ultrapassando, eis que uma notícia falsa sai, ou polémica, não estou certa de onde, a acusar o INE da falta de segurança na informação dos dados pessoais da população e que os estes estavam em risco. Alegadamente “a empresa não dava garantias do cumprimento integral da legislação europeia de proteção de dados, pondo em causa o sigilo dos dados facultados” que, nesta altura, já seis milhões de cidadãos tinham respondido ao inquérito dos Censos2021. Contas feitas, faltavam cerca de 4 milhões para responder. Para mim e para os outros Recenseadores, as probabilidades da dificuldade em ter de explicar, e fazer entender claramente, que não haveria qualquer problema, tentando não ferir nenhuma suscetibilidade com alguém mais sensível aos seus dados e informações pessoais, era extremamente elevada. De nada serviria usar argumentos que, afinal, as nossas informações pessoais, hoje em dia, estão dispersas em todo o lado bastando haver uma conta de e-mail, uma rede social, um jogo, um registo online, e assim por adiante… Enquanto eu pensava em vários argumentos para usar in loco, a polémica e o sururu já se tinha replicado e outro problema se tinha instaurado de pedra e cal.

Após estes desafios morais e argumentativos, outras situações carnavalescas foram acontecendo, entre as quais, por exemplo, ter sido mordida por um cão farsante e ver-me obrigada a ir, um dia e meio após o sucedido, para o hospital.

Contudo, reparo que a população da minha aldeia, a gente da minha terra, continua genuína e faz jus à reputação que os transmontanos têm: o acolhimento, a espontaneidade e o calor.

Naturalmente que eu, sendo filha da terra, tive, dentro dos reveses, o trabalho facilitado: é impressionante o poder das frases “sou a Rita, filha de…” ou “a neta de…”. Este último exemplo de apresentação pessoal servia de mote para uma história ou vivência relacionada com o meu avô ou com a minha avó, filhos da terra também e falecidos há mais de 20 anos. Eu, de boa vontade e grata pela partilha, ouvia atentamente e repercutia as histórias à filha deles, minha mãe.

Não sei quanto à experiência dos outros recenseadores, mas a minha, digo-vos, agora que quase terminado e faltando apenas limar umas arestas, foi gratificante. Confesso que houve dias de bradar aos céus, outros que queria desistir porque já não havia ponta por onde lhe pegar, e outros, embora intensos, um pouco mais fáceis.

Esta agitação estatística, porém, irá deixar de acontecer nestes moldes. Segundo o presidente do INE, Francisco Lima, afirma que “chegando à informação censitária com dados administrativos, é como se passássemos a ter um Censos anualmente”.

É de salientar que a equipa que esteve comigo, neste barco e nesta maré, foi incrível e disposta a tudo. Os CENSOS não são realizados apenas pelo Recenaseador. Esse apenas está na linha da frente.

Por trás deste, de mim e no meu caso, há uma Coordenadora de Freguesia, o braço direito, a ajudar e a motivar quando se esmorece.

Há um Presidente de Junta de Freguesia a orientar com a sua experiência e conhecimento.

Há um Delegado Municipal paciente para formar e esclarecer dúvidas e questões, independentemente das vezes que estas lhe são repetidas ao longo de um dia.

Há a população disponível e disposta a ajudar, os vizinhos que nos explicam quem é quem quando nos sentimos totalmente desorientados numa rua.

E há os outros, que não os vemos e eu não lhes conheço a cara , que, no fundo, são a engrenagem desta mega operação estatística e que junta Portugal num só objectivo: ficarmos a saber quantos somos, como somos, onde vivemos e como vivemos.

Rita Morais de Oliveira

Sem apresentações hollywodianas, nasci em 1988 no Nordeste Transmontano, Portugal. Encontrei o meu habitat na escrita desde que comecei a ler e a escrever. Nos meus tempos livres, além de Freelancer de Conteúdos, também sou uma aspirante escritora em (eterna) construção e indiscutivelmente contra o Novo Acordo Ortográfico. Com dois contos editados nas Antologias "À Margem da Sanidade" e "O Penhasco"; outro publicado na Revista Pulp Fiction e um livro em criação. Prevalece sempre o mesmo género literário: policial, thriller, suspense e algum terror psicológico. Como o nosso velho amigo Albert Einstein disse: "Criatividade é inteligência divertindo-se."

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