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Sociedade

Fantasia da conspiração

Desde sempre, existiram versões não oficiais de eventos importantes, sendo essas muitas vezes a verdade, que certos poderes quiseram calar, em épocas em que se acreditava mais que era possível controlar a informação. Essa informação circulava, e, quando tinha bases credíveis, com o tempo juntava informação e revelações posteriores às tentativas de encobrimento, espalhando-se e sendo corroborada mais tarde.

Mas também existiram sempre os doidos com imaginação descontrolada, e as conversas de bar, sustentadas a muito álcool e desejo de atenção.

Na sociedade atual e na esfera digital da World Wide Web, o tempo já não é um factor que depura as histórias mais sensatas e reais, mas a transmissão instantânea permite espalhar a mais gente (que também amplia esse alcance) explicações muito particulares (e polarizadas) dos fenómenos do mundo actual.

O termo “teoria da conspiração” foi uma tentativa de descredibilizar narrativas não oficiais sobre temas reais mais tarde provados, como testes médicos ilegais na população negra nos USA ou o projecto MK Ultra, mas misturando esses com puras fantasias que surgiam e morriam regularmente.

No entanto, com a internet as conspirações do 11 de Setembro criaram um novo mundo de “conspirações”. Foi esse evento, no que era suposto ser o marasmo de “o fim da história” de Francis Fukuyama e o ser um ataque inédito ao superpoder global, que levou muitos a criar e crer numa ordem secreta, em um estratagema obscuro, por detrás do aparente caos do mundo.

Na verdade, estamos num momento de questionamento de narrativas, sejam religiosas, políticas, económicas. Há uma descrença, muitas vezes confirmada por factos tornados públicos, de todas as figuras a que antigamente as “massas” conferiam autoridade sobre a descrição do mundo. Hoje, os media que nos falam todos os dias, que se dizem árbitros da verdade, são marcados pelos “programas de realidade” e o ciclo de notícias de 24h, que se confundem na forma como representam e misturam a realidade e factos, buscando o número de espectadores como o único critério de sucesso, onde o clickbait é o objectivo, não a informação.

Ter uma explicação, mesmo uma errada, da realidade é mais fácil do que aceitar a ideia do mundo não ter a nossa existência em conta, e permite estipular estratégias para “gerir” a vida.

A teoria da conspiração torna-se tal quando se percepciona a história, ou ciência ou política, ou todas, como grandes mentiras, propagadas por forças que escondem a verdade. Essa “grande verdade”, essa “descoberta” não só confere ordem, como intencionalidade, a um mundo caótico e imprevisível, pleno de acontecimentos muito além do nosso controle.

Estas crenças por vezes, acidentalmente, criam obras que valem pela sua vontade de fazer, pela sua ingenuidade, pela sua fantasia e imaginação. Há um potencial nas teorias de conspiração que aproxima esses indivíduos, através da sua crença pessoal e por caminhos não convencionais, da criação artística, nas artes visuais, na escrita, na representação, na retórica ou performance, na relação entre filosofia, ficção científica, paranoia e arte, em que os elementos do real são acusados de manipularem a nossa percepção, há toda uma hipótese da arte criar ficções e meta-narrativas.

A fantasia de ser importante, de ser seguido, de ser corajoso, de ser o herói da história, leva a criar uma história baseada nas suas forças e medos, naquilo que mais temem ser algo que não lhes vai acontecer. Como num ambiente onírico, todos os que acreditam numa versão destas da realidade são os heróis da sua história, são a “resistência”, são muitas vezes a “única esperança da humanidade“, simplesmente por escreverem comentários delirantes nas redes sociais e alienam as pessoas na sua vida real. Sabem que na verdade não vai haver uma Pink LGBTQ+ Gestapo a bater à porta, ou que os helicópteros pretos não os vão levar no meio da noite.

Há algo de auto-biográfico nas fantasias, e um sentido de preservação e segurança. Naqueles que pregam uma versão do fim do mundo, e fazem os seus bunkers, há casos de engenheiros químicos que têm a fantasia que alguém vai largar químicos na água ou militares que acham que uma invasão está iminente, fantasias em que os seus conhecimentos e preparação vão ser extremamente úteis, em detrimento de outros cenários apocalípticos em que o resultado não os torna especiais. Esse mundo de fantasia é o que desejam para si, não o que verdadeiramente temem.

No fundo, todos temem assumir que o mundo é caótico e imprevisível. E o seu pior cenário é aquele em que já vivem, em que não são especiais e ninguém lhes liga nenhuma. Como aquele tal bêbado no bar, com ideias mirabolantes, que existiu ao longo dos séculos de sociedade humana.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Antigo Acordo Ortográfico.

Telmo Alcobia

Telmo Alcobia nasceu em Lisboa, 1980. É licenciado em Pintura ( FBAUL 1999-2004) e Mestre em Desenho ( FBAUL, 2006-2009), além de várias formações complementares. Expõe em colectivo e individualmente desde 2001. Além da pintura contemporânea e arte mural, e ilustração, já escreveu artigos, para a revista Umbigo e outros. Actualmente faz parte do Grupo POGO, e trabalha com a Galeria António Prates e o Centro Português de Serigrafia.

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