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Crónicas

A obrigação do verão

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Lembro-me de ser miúda e de viver em contagem decrescente para o verão. A promessa dos amores de areia nos pés e os dias intermináveis de cabelo salgado. Passava meio ano a ansiar pela outra metade. Queria viver tudo à pressa, brindar com todos os que me rodeavam e ser feliz até doer a barriga.

À medida que o tempo foi passando e a poeira da juventude assentando, o verão começou a diminuir de tamanho e a sofrer aumentos absurdos de expectativas. Na minha cabeça, o verão era um lugar eternamente feliz onde todas as mudanças que pudessem existir no mundo não seriam suficientes para o afectar. Tanto anseio anual para algumas semanas de verão começaram a ser motivo, não de felicidade, mas de obrigatoriedade. Comecei a olhar para o verão como um rol de tarefas que pura e simplesmente não me apeteciam fazer, mas que não sendo feitas não me permitiriam usufruir da época mais desejada do ano como foi convencionado.

Há no verão um sentido de obrigação de felicidade que me aflige. Tenho de estar mais magra para ter um corpo minimamente apresentável quando me dispo na praia. Tenho de comer saladas frescas e hidratantes porque comida quente e aconchegante não se coaduna com o tempo abafado. Tenho de passear, muito, na tentativa desesperada de absorver na minha pele todos os benefícios mágicos do sol de verão. Tenho de assistir a um pôr-do-sol no mar, de cerveja na mão e inundada de plenitude. Tenho de acordar com um entusiasmo extrovertido e descontrolado porque a estação da luz está de volta e com ela toda a esperança num mundo mais bonito e bronzeado.

Apesar de toda a explosão positiva associada ao tempo quente e solarengo que é explicada biologicamente, o verão desenhado ocidentalmente em registo de férias e consequentemente felicidade, deixou de me fazer sentido. A contraposição triste associada ao tempo mais frio acaba por condicionar os meus comportamentos polarizando o que sinto conforme as estações do ano. Inevitavelmente, chego ao fim do verão com uma sensação de incumprimento pois não aproveitei o suficiente, não fiz o suficiente e não vivi o suficiente. Não obrigo a minha felicidade para o verão, mas também não a quero esconder no inverno.

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Rita Ramos
Escrevermos sobre nós próprios, no sentido de nos darmos a conhecer a quem nos lê, acaba sempre por ser ingrato. Somos um nome? Uma idade? Uma formação académica? Eu quero acreditar que somos tudo o que vivemos, que somos tudo o que nos rodeia e que absorvemos, que somos quem amamos, que somos os livros que lemos e as viagens que fazemos. Somos um conjunto de tudo e de nada. Quanto a mim, sou a Rita, tenho 37 anos, sou licenciada em Relações Internacionais, sou casada, sou filha e mãe, e as palavras têm sido a minha maior companhia ao longo da vida.

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