fbpx
CrónicasEducaçãoSociedade

O meu filho é melhor que o teu

Começo este texto com um pedido de desculpa. Sou mãe de um miúdo de 3 anos e isto da maternidade tem algo de irracional, de emocional e de demasiado pessoal. Não havendo verdades absolutas e sendo a maternidade uma realidade diferente para cada mãe/pai, segue o meu ponto de vista que não é mais que a tentativa de racionalizar as minhas emoções. Certo ou errado, cabe a cada um decidir o que lhe faz mais sentido.

Faz parte da nossa dinâmica, ao longo de toda a vida, a comparação. Comparamos um azul que é mais claro com outro azul mais escuro, comparamos o nosso carro que gasta menos que o do vizinho e, mesmo que inadvertidamente, comparamos os nossos filhos com os filhos dos outros mas quase sempre na perspectiva que os nossos são melhores.

Desde que fui mãe que sou obrigada a viver em competição constante. E esta competição está de tal forma entranhada na nossa forma de ver as crianças que acabamos por olhar de lado para um bebé que deu os primeiros passos aos 19 meses e não aos 11. É comum e aceite o discurso e as consequentes atitudes, que existem crianças melhores que outras e que essa “superioridade” é medida através de pontuações e números que nada significam no desenvolvimento das próprias crianças. Claro está que as capacidades têm de ser notadas mas será mesmo necessário, do ponto de vista da criança, que estas mesmas capacidades sejam quantificadas? Até que ponto a pressão da competição e avaliação contribui para a saúde emocional e intelectual das crianças? Será que toda esta imposição faz sentido na infância ou apenas serve para satisfazer eventuais desequilíbrios na vida dos pais?

Num ponto de vista mais pessoal, custa-me aceitar que o meu filho será visto como um número e que esse mesmo número poderá condicionar a forma como ele se apresentará e será visto perante a sociedade. De um ponto vista ainda mais pessoal, tenho dificuldade em compreender a necessidade de determinados pais de forçarem os seus filhos a serem os melhores jogadores de futebol, terem as melhores notas a matemática e saberem interpretar Kafka aos 7 anos. Pergunto-me, talvez com demasiada frequência, para quê? Não será mais importante a aprendizagem ao longo do caminho do que atingir a meta em primeiro lugar mas de forma atabalhoada e sem substância?

Não quero ser pretensiosa ao ponto de achar que consigo definir um adulto saudável mas, em quase todos os casos, os adultos mais interessantes que conhecemos são aqueles que vieram de infâncias felizes e de memórias sorridentes em que caminhavam de mão dada com os seus pais e curiosamente não eram assim tão bons alunos. Também não quero passar a ideia de desresponsabilização perante os compromissos que temos perante o caminho escolhido da nossa sociedade para o ensino das crianças, claro que quero que o meu filho seja um bom aluno. Não quero nem preciso que seja o melhor, o que lhe exijo é que seja feliz.

Rita Ramos

Escrevermos sobre nós próprios, no sentido de nos darmos a conhecer a quem nos lê, acaba sempre por ser ingrato. Somos um nome? Uma idade? Uma formação académica? Eu quero acreditar que somos tudo o que vivemos, que somos tudo o que nos rodeia e que absorvemos, que somos quem amamos, que somos os livros que lemos e as viagens que fazemos. Somos um conjunto de tudo e de nada. Quanto a mim, sou a Rita, tenho 37 anos, sou licenciada em Relações Internacionais, sou casada, sou filha e mãe, e as palavras têm sido a minha maior companhia ao longo da vida.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Botão Voltar ao Topo

Adblock Detectado

Por favor, considere apoiar o nosso site desligando o seu ad blocker.
%d bloggers like this: