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“Meu amor, estaremos sempre de passagem”

Estudar a mais de 200 km de casa fez com que muitos “até amanhã” ficassem reduzidos a um único “boa semana”. De 15 em 15 dias, as despedidas de domingo formaram cortes que se acumularam ao longo de quatro anos densos. E nunca me habituei ao esforço emocional que a tarefa requer. Agora, quando me despeço ao domingo, faço-o por melhores razões e a distância do destino é menor. Mas nem por isso dizer “adeus” é mais fácil.

No último ano, conheci muita e boa gente. Pessoas divertidas, sonhadoras e capazes de se meter em mil projetos ao mesmo tempo. Foram elas que me inspiraram a ser mais curiosa e foi com elas que redescobri que, por vezes, uma boa conversa é o suficiente para fazer o dia valer a pena. Contudo, nem todas elas se mantiveram por perto. Aliás, muitas delas partiram. Atrás de novos trabalhos, em busca de mais qualidade de vida ou simplesmente porque havia um prazo definido para estarem aqui.

Assim, os rostos que entraram e saíram da minha rotina somam-se àqueles que nunca pude trazer junto com a bagagem. E essa multiplicação adensou o sentimento de incompletude, gerado pela consciência de que as alegrias e as tristezas só contam quando são partilhadas.

Por isso, um destes dias, acordei entre uma pilha de conquistas sobrepostas de qualquer modo e uma torre de amarguras mal aconchegadas. Quando lhes toquei, vacilaram porque não pertenciam ali, à falta de planos em conjunto. Mas a verdade é que terão que encontrar o equilíbrio. Na esperança de tempos melhores, em que a saudade seja uma miragem e em que os “até já” bastem nas despedidas.

Sim, pertenço a uma geração que dificilmente se mantém no mesmo sítio. Connosco, nada é para sempre. Mas acredito que um dia teremos que parar, deixar para trás a voracidade de saber o que se segue e aproveitar a companhia de quem sempre quisemos ter ao nosso lado. Sem a complicação das despedidas.

Nessa altura, viveremos os “melhores tempos” pelos quais sempre ansiámos. Mas, até lá, estaremos sempre de passagem, com a saudade a consumir-nos, “enquanto o medo vai dançando à nossa volta”.

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Florbela Caetano

Gosto dos mundos que se dizem contraditórios: a publicidade e o jornalismo. Gosto de pensar que os dois nos podem ajudar a viver num mundo melhor. Gosto de sentir que informar pode repor a serenidade no meio de caos. Deixo-me fascinar com a imagem e perco-me na escrita. Entre todas as alianças de universos ao nosso dispor, quero dizer as palavras e criar imagens com o som.

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