fbpx
SociedadeSociedade

Dois anos de COVID – Um balanço pouco ortodoxo

No dia 11 de março de 2020, a OMS declarou que a COVID-19 deixava de ser epidemia para passar a ser pandemia. A maioria das pessoas saberá onde se encontrava. Eu estava a caminho de casa quando li esta notícia e recordo-me, até, de como estava o tempo. Passaram-se praticamente dois anos desde que foi oficialmente descoberto, e muita coisa se passou, mas já começamos a vislumbrar o fim deste túnel que atravessamos.

Cada geração costuma ter a sua crise, mas no caso da nossa, mal acabámos de ser geração à rasca e começámos a ser a geração de máscara. Mal se perspetivavam, finalmente, as oportunidades desejadas e passamos ao confinamento.

Sendo a geração com maiores níveis de escolaridade, é curioso notar como outro vírus foi entrando sub-repticiamente através das palmas das nossas mãos: fake news. As estratégias de desinformação são tão antigas como a mais antiga profissão do mundo, mas nunca estiveram numa posição tão destacada e presente como hoje em dia. Se é verdade que os meios de comunicação, canal privilegiado de acesso à informação optou por ceder à tentação das audiências, dando espaço e voz a discursos sem fundamento, também é verdade que representa a facilidade com que aceitamos acriticamente qualquer informação, desde que esteja publicada. Não interessa se é verdadeira ou não. O que importa é a emoção sentida no momento em que vejo, quer se apoie em factos ou não. Basta ser credível!

Seguimos as tendências internacionais de homenagear o trabalho estoico a que médicos e enfermeiros se entregaram (os invisíveis auxiliares não tiveram essa condecoração); ansiávamos por ter acesso às vacinas que milagrosamente nos livrariam deste mal para, logo em seguida, as recusarmos pelo facto de não terem sido testadas no seu devido tempo. Dirão uns que se resumem a uma minoria sem expressão; outros dirão ainda que todos têm direito à opinião e liberdade de a exprimirem. É tudo verdade, mas nos seus devidos contextos. Doentes devem ser examinados por médicos e não por curandeiros – com o devido respeito pela sabedoria popular das ervas e chás.

Pudemos assistir a algo que nunca imaginei ser possível: estados de emergência. Acabara de sair da puberdade quando li pela primeira vez a Constituição da República Portuguesa. Nunca pensei que uma exceção pensada para cenários de extremos, como guerra, onde o Estado pode estar em perigo fizesse parte do meu quotidiano, como o vivenciámos.

Nestes anos que passaram, continuamos iguais ao que sempre fomos. Tal como Júlio César terá dito: não nos governamos nem nos deixamos governar. Talvez uma frase nunca tenha traduzido tão bem as contradições em que sempre nos encontramos. Caminhamos a ziguezaguear por entre resistências à intervenção do Estado e a expectativa de termos um Messias que nos venha salvar da miséria em que nos encontramos. Mais do que resistir a um poder é o modo de ser português que aquela expressão tão bem capta. É a capacidade de criticar, mas de nada fazer; planear pouco e esperar resultados excecionais.

O Governo, tal como no passado, vai tomando as medidas que repetem os mesmos erros de sempre, medidas que visam o tempo de um mandato. Ou seja, os planos vão de eleição em eleição. O principal desafio é a capacidade de planear para além do termo de um mandato. Ter em mente, não objetivos partidários, mas o desenvolvimento justo e um progresso maior na redistribuição da riqueza criada, não apenas na sociedade, mas nas regiões menos desenvolvidas. Dotar o país de uma verdadeira estratégia para a educação, para a retenção dos cérebros que emigram e que tão bem os preparámos, enfim, dotar o país de uma mudança de mentalidade.

Continuamos a duas velocidades, temos o sofisticado país do litoral, e o país do interior em que para conseguir assistir à telescola temos de estar na estrada para apanhar internet. E não são slogans ou anglicismos da moda que vão alterar a realidade. É preciso exemplo e capacidade de mobilização que começam nos lugares de destaque.

Nota: este artigo foi escrito seguindo as regras do Novo Acordo Ortográfico

Davide Morais Pires

Cresceu no campo a pensar na cidade e agora que está na cidade só pensa no campo. Apreciador de café, mas isso não quer dizer que sonegue um bom chá, preferencialmente preto, para iniciar uma conversa interessante. É aluno de mestrado em Relações Interculturais e autor do livro Ecce Homo, editado por Poesia Fã Clube.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.

Botão Voltar ao Topo
%d bloggers like this:

Adblock Detectado

Por favor, considere apoiar o nosso site desligando o seu ad blocker.