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A covid-19 lembrou-me um sonho lindo

Estantes públicas cheias de livros

“ADVERTÊNCIA AO LEITOR”

“No seu próprio interesse, prezado Leitor, verifique se este livro mantém o lacre branco que sela algumas das suas páginas; neste caso, abra-o, por favor, como o faria com um livro não guilhotinado, isto é, com uma faca ou, até, com um simples cartão – mas nunca com um dedo, que pode rasgar as folhas. Se o livro estiver todo aberto, rejeite-o, pois é indício de que já foi lido. Defenda a sua saúde não manuseando livros usados.”

Página de livro

Este aviso é a primeira coisa que se lê, ao abrirmos o livro “Destino de um homem”, de Somerset Maugham, numa edição da Livros do Brasil. Cheguei até este exemplar, num dia de sol, em que ainda ninguém falava de vírus. Talvez alguns se queixassem de uma constipaçãozita ou outra, mas isso não era caso para alarme. Afinal de contas, não passavam de coisas próprias da estação. Por isso, ri perante aquela “ADVERTÊNCIA AO LEITOR”, em letras garrafais.

“Antigamente, tinham muitos problemas de higiene para chegarem ao ponto de não permitirem que mais do que uma pessoa lesse o mesmo exemplar”, pensei entre admiração e ironia. Uma ironia acentuada pelo facto de ter escolhido este livro, entre muitos outros, num frigorífico transformado em estante pública, no meio da vila. Um frigorífico por onde já haviam passado dezenas de mãos.

Não sei quantos donos já tiveram as páginas do exemplar que escolhi, mas o que é certo é que, quando peguei nele, não mantinha o lacre branco. O livro estava todo aberto, o que era um claro indício de que já tinha sido lido, segundo o aviso. Mas o desejo de ler a história foi mais forte do que a noção de que deveria defender a minha saúde. Mais do que isso: aquele era um aviso aplicado a tempos idos e que nenhuma relevância tinha no momento. Assim, manuseei aquele livro usado, tal como manuseei outra centena de livros, álbuns e DVD, que ao longo dos tempos requisitei em bibliotecas públicas ou que me foram sendo emprestados. E nunca, mas nunca, pensei que poderia estar a pôr em causa a minha segurança.

No entanto, agora, claro, é diferente. Esta noite, sonhei que estava na biblioteca da vila, entre romances e BD. Procurava um livro do “Tintin”, enquanto a bibliotecária me dava a certeza de que era seguro mexer nos livros em que outros tocaram. Ao acordar, no entanto, soube que ainda vai demorar muito até este sonho se tornar realidade. Por isso, o melhor que tenho a fazer é ir lendo, muito devagarinho, os livros que me rodeiam.

Na verdade, um dos grandes medos desta quarentena – ainda que alguns o possam classificar como “trivial” – sempre foi que as histórias se esgotassem, antes que o isolamento acabasse. Hoje, o medo é que precisemos de recuperar o aviso que um dia encontrei no Destino de um homem. E, se esse é o nosso destino, o que vai ser das nossas bibliotecas?

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Florbela Caetano

Ligar o rádio é a primeira coisa que faço ao acordar. E isso já diz muito sobre uma jovem adulta, no século XXI. Como se este desajustamento não bastasse, gosto dos mundos que se dizem contraditórios: a publicidade e o jornalismo. Trabalho no primeiro. Procuro formas de me manter ligada ao segundo.

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