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As más notícias chegam nos dias de sol

Assim que ouviu os gritos da vizinha, Joaquina soube imediatamente que uma desgraça tinha acontecido. Era terrível, e morreria antes de o admitir, mas tinha passado grande parte da vida adulta à espera dessa desgraça, que sem dúvida envolveria o seu filho Vítor, marafado do moço! Era rebelde, incontrolável, um diabo provocador. Ao contrário do seu filho mais velho, Gabriel, que era um encanto de rapaz, um descanso, uma paz de alma. O que é que Vítor teria feito desta vez, Nossa Senhora, para despertar aqueles gritos terríveis?

Apagou o lume e foi até ao quarto. Olhou para o altar, ajoelhou-se uns segundos, e benzeu-se. Não pediu nada a Deus; nem força, nem um milagre, nem voltar atrás no tempo. Sabia que já não havia nada a pedir, que o destino estava traçado. Simplesmente sentiu que tinha de olhar para os seus santos, reunir toda a fé de que fosse capaz, e enfrentar o mundo como lhe fosse apresentado a partir daquela hora. Beijou os pés de uma figura de Cristo, levantou-se com esforço, fazendo um esgar de dor devido ao reumático. Benzeu-se de novo e foi até à porta de casa, que já estava aberta.

– Jaquina! Ó Jaquina! Foi uma desgraça, uma desgraça! – gritava a vizinha.

Limpou as mãos no avental, por hábito, pois as mãos estavam secas. Pôs uma mão por cima dos olhos, para tapar o sol. Pensou que estava um dia bonito e que as más notícias chegavam sempre nesses dias, quando menos se esperava.

– O que foi desta vez? – atreveu-se a perguntar, esperando que a “desgraça” de Maria do Vale não fosse o que tinha temido durante tanto tempo.

A vizinha foi-se aproximando, num passo rápido e desajeitado, o equivalente ao correr dos idosos. Vinha com as faces vermelhas, e respirava com dificuldade, mal conseguindo falar. Enquanto corria limpava o suor da testa e segurava o lenço preto que lhe escorregava da cabeça, destapando o cabelo fino cor de neve. Assim que chegou ao pé de Joaquina, respirou fundo.

– Desembuche, Maria! Quer matar-me do coração ou quê?

– Ai, Jaquina, mulher, foi o Vítor! O Vítor! Uma desgraça!

– O Vítor o quê? – sentiu o coração aos pulos. Já estava à espera, Vítor não era flor que se cheirasse! Mas era seu filho e sentiu medo na mesma, receio, nervosismo. Quis salvá-lo da prisão, porque ia de certeza para a prisão. Agarrou no avental para evitar que as mãos tremessem. – Diga lá, mulher, o que foi desta vez?

Sim, as más notícias chegavam nos dias menos esperados, e arranjavam sempre maneira de nos surpreender.

– O Vítor morreu! O Gabriel matou o Vítor, Jaquina!

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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