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We need to talk about Kevin

Li na contracapa que o livro era sobre uma mãe que, depois do filho ter cometido um massacre numa escola, escrevia cartas ao marido, tentando, assim, procurar uma explicação racional para o sucedido. Soube imediatamente que queria ler este livro. É o meu género de livro, talvez por não compreender esses casos de massacres, a nível psicológico, e ter muita curiosidade sobre este tipo de temas. Devo dizer, não desapontou.

Penso que a autora, Lionel Shriver, liga toda a narrativa de forma magnífica. Pequenas acções presentes levam a acontecimentos e memórias passadas, mas cada tempo está ordenado cronologicamente. É muito inteligente, pois dá-nos várias histórias de vários tempos diferentes, que ajudam a compreender a intensidade, imensidão e a big picture da história, mas como ambos são contínuos, permitem que seja fácil seguir a acção. Desta forma, denota que é perita em deixar-nos suspensos capítulo a capítulo.

Devemos lembrar-nos que toda a história é contada da perspectiva de Eva, que, embora seja humana e admita erros, culpa e sentimentos mais complicados, terá sempre uma versão diferente daquela que teriam o marido, a filha ou o filho. Contudo, não conseguimos deixar de acreditar que é ela que tem a versão mais correcta de toda a história.

Os capítulos começam sempre no presente, com uma Eva triste, até culpada, a tentar ultrapassar o grande crime do seu filho e a tentar lidar com as consequências do mesmo. Uma Eva que procura uma explicação junto do seu próprio filho Kevin, a quem visita sempre no reformatório, mas também junto do seu marido, Franklin, através de cartas às quais nunca vemos resposta.

No passado, somos guiados pela vida de Eva, comum a tantas. Começa solteira, uma vida em que só existem ela e o marido Franklin, as suas profissões e os seus amigos. Depois, acompanhamos a decisão de maternidade, que a deixa insegura. Finalmente, conhecemos Eva mãe e Franklin pai, a tentarem criar um filho difícil, Kevin, e uma filha muito dócil, Celia, e a lidarem com os seus próprios problemas de casal. Com a excepção de um detalhe arrepiante e perturbador, que parece originar estes problemas: Kevin é um filho vazio, manipulador, que parece odiar o mundo em geral e a mãe em particular, conseguindo enganar o pai na perfeição.

Só nos capítulos finais é que conseguimos ter uma real perspectiva de tudo o que Kevin fez e é – que vai muito para além daquele massacre que mudou a vida de todos os personagens –, conhecemos também de tudo o que Eva foi e é. Tudo o que os dois serão.

Tem um final arrepiante, surpreendente e muito real, que nos faz ficar a olhar para a última página e fechar o livro com um suspiro sentido, compreendendo (quase) totalmente que nunca compreenderemos totalmente nada.

Rosa Machado

Curiosa e fascinada pelo que não compreende, bicho dos livros e criadora compulsiva de hipóteses mirabolantes. O tempo não existe quando há conversas filosóficas sobre nada, gargalhadas dos amigos, abraços a animais, viagens pelo mundo e todo o tipo de arte.

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