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Somos sombras do tempo em que vivemos

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Parámos no semáforo, lá fora o frio aperta e a chuva miudinha que teima em cair neste início de noite, apesar do Inverno teimar em chegar, o artista de rua continuava a fazer os seus truques e malabarismos, em cada paragem dos carros, para tentar ganhar mais umas moedas.

No quente dos nossos carros, protegidos da chuva, nós os condutores, imbuídos nos seus pensamentos, nos seus mundos e nas suas dores, pouco ligavam ao homem que subia e descia o escadote, sujeito a esfrangalhar-se todo no meio da rua, com duas tochas a arder, que muitas vezes caiem no chão. No fim, com o semáforo prestes a passar para verde, com os carros quase a arrancar, dirige-se aos carros, com um sorriso, o seu melhor sorriso, o sorriso de alguém que livremente escolheu esta forma de vida, sem se importar o que os outros pensam da sua escolha.

Apesar de estar na fila mais ao lado, chamei-o e dei-lhe uma moeda e um sorriso, desejei-lhe boa noite. Mais ninguém o fez, infelizmente só viu, com o seu sorriso, as janelas a fecharem-se.

Antes do sinal abrir, ainda tive tempo de o ver dirigir-se a uma moça, provavelmente namorada, dividir com ela as moedas que amealhara, dar-lhe um beijo e ambos irem de mão dada rua abaixo. O sinal abriu e arranquei!

Continuei o caminho a pensar naquele casal, em que havia uma escolha de vida, que para mim não era a mais correta, mas era a escolha deles, quem era eu para criticar? Serão felizes dessa forma? Não sei, mas não me cabe a mim julgar ou criticar as escolhas dos outros.

Serão eles mais felizes do que outras franjas da sociedade? Sem dúvida!

Serão mais aceites? Tenho dúvidas e isso viu-se pela reação dos condutores.

Eu também tenho as minhas escolhas. São consensuais? Com certeza que não, mas esforço-me para que sejam minimamente aceites. Não devia, mas eu já tenho uma luta tão grande por ter nascido com um pipi! Ser mulher, nos tempos que correm não é nada fácil.

Também eu aqui expurgo ‘’mea culpa’’ porque também, durante alguns anos olhei os artistas de rua, os sem abrigo, os mendigos, os ciganos e muitos outros com receio, pois era isso que a sociedade me incutia. Afasta-te, cuidado, podem ser agressivos… Na realidade percebi, ainda muito jovem, que qualquer pessoa pode fazer bem ou mal, seja de que parte da sociedade for, e acabei por desconstruir estes medos.

Vivemos numa sociedade em que a pessoa é o que possui, tens de te mostrar, tirar N cursos, mestrados, MBA, ter um emprego melhor que o filho da vizinha, comprar uma casa maior, um carro bombástico que dê no olho à família, mesmo que para isso tenhas um ‘’Burnout’’ aos 30 anos ou não tenhas tempo para ver os teus filhos crescer. O importante é seres donos de uma série de bens materiais!

Vivemos na sociedade do Ter para Ser, quando devíamos calçar os sapatos do outro antes de opinar e aí sentir a sua dor e ser mais empático, ser mais ‘’camarada’’, perguntar mais vezes o que ‘’posso fazer para te ajudar’’, e não o “pois, eu avisei-te”!

Partilhar a nossa dor ou viver a dor do outro torna-nos vulneráveis, e isso é algo que não é bem aceite pela sociedade.

Durante a pandemia de Covid19 havia a esperança de que tudo ia ficar bem e que as pessoas iam ser mais empáticas, que a pandemia vinha mostrar ao mundo que devíamos ser melhores uns para os outros, mais humanos, mas na realidade, a sociedade tornou-se mais individualista, mais “umbiguista”, cada um por si e o lema “Eu sou eu e o resto que se lixe” está mais presente que nunca.

Somos sombras do tempo que corre e temos de contrariar isso.

Está presente nos idosos abandonados no hospital, no aumento de sem-abrigo, no aumento de crianças maltratadas.

O lema “Eu sou eu e o resto que se lixe” está presente no aumento da corrupção ao mais lato nível dos governos, na guerra que assola a velha Europa, nos cadáveres que ficam por reconhecer nas morgues por este país fora, pessoas que foram o mundo de alguém, não são agora ninguém no mundo.

Pois em contraciclo recebemos boas notícias, um país que se une e aumenta, em tempos de crise, os donativos para o Banco Alimentar, um país que se une e consegue 350m€ em 4 dias para uma criança ir a Israel fazer um tratamento, um país que tem pessoas, que não fecham os vidro do carro nos semáforos, que dão moedas, por pequenas que sejam, que tem a capacidade de dar um pão a quem tem fome e tantas outras coisas.

Sim, há muito egoísmo na sociedade, há muitos que só pensam em si, mas há outros que começam a despertar e a sentir a dor do outro, somos cada vez mais, e é isto que nos torna humanos.

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Cátia Félix
Sou a Cátia, uma cidadã do mundo que teve o privilégio de nascer em Portugal. Desde pequena que fui ensinada de que somos do tamanho da nossa voz e que nunca devemos calar os sentimentos. Tenho um filho maravilhoso que me inspirou e incentivou a escrever o meu primeiro livro infantil, Martim e o astronauta que gostava de bolonhesa. Sou bancária de profissão e autora de coração.

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